quarta-feira, abril 11, 2012

A "twitterização" do email

As ferramentas web mais recentes estimulam seus usuários a serem ágeis, rápidos, totalmente online. Basta um clique para "Curtir". Talvez a maior prova dessa nova tendência seja o Twitter, onde cada post deve ter no máximo 140 caracteres. É para ser breve, rápido, conciso ! Sem escrever o que não precisa ser escrito.

O lado negativo disso tudo é que as pessoas estão se desacostumando a ler textos maiores. Não estou nem me referindo a livros ou revistas. Mesmo na internet, quando a pessoa se depara com algum post ou artigo que tenha mais de cinco linhas, dificilmente irá para lê-lo. Isso se torna ainda mais grave quando falamos não mais da utilização pessoal da tecnologia, e sim do uso profissional. Um belo exemplo é o tradicional email.

O email continua sendo uma importante ferramenta de trabalho. Sabemos que em diversas situações, em qualquer tipo de atividade profissional, temos a necessidade de formalizar certas decisões, deixá-las documentadas. Isso fica ainda mais evidente quando estamos tratando com clientes ou fornecedores. O email, no final das contas, vira uma "prova". Invariavelmente, o conteúdo de algumas mensagens acaba crescendo. Quando utilizamos a comunicação escrita, principalmente no trabalho, é indispensável que tudo esteja bem claro, para não dar margem a interpretações erradas. Aí vem o problema: mesmo profissionais competentíssimos, de empresas conceituadas, têm mostrado ultimamente uma preguiça inexplicável de escrever e ainda mais, de ler, emails mais extensos.

Pior do que não ler mensagens grandes é o processo de menosprezo pelo qual os profissionais que sabem escrever um bom texto têm passado. A impressão é a de que saber escrever um texto, expressar suas ideias de forma clara passou de virtude a defeito. Basta chegar um email com mais de dez linhas para que ele seja deixado de lado, mesmo que nele haja informações importantes. Tem sido preferível, pegar o telefone (ou Skype, etc, etc.), ligar para pessoa que mandou a mensagem e pedir que ela repita a mesma coisa por voz.

É natural que, em algumas situações, uma boa conversa por voz seja muito mais produtiva e útil do que a troca de mensagens. Mas não há como negar as vantagens de um email bem escrito. Ao ler uma mensagem escrita, o destinatário tem tempo para entender, reler, analisar cada ponto colocado, ao contrário de uma conversa por voz em que muitas vezes não tem tempo para raciocinar, para formar uma opinião mais embasada. Quando desejamos nos comunicar com alguém muito ocupado, o email vira um grande aliado, uma vez que não interrompemos essa pessoa e ela tem a chance de dar toda a atenção ao assunto no momento que puder. Além é claro da vantagem natural de que aquilo que foi escrito, fica documentado, o que muitas vezes é essencial.

Espero sinceramente que a importância de uma boa comunicação escrita não perca seu valor com o tempo. Receio que em breve tenhamos também um limite de 140 caracteres, ou menos, para uma mensagem de email.

segunda-feira, março 19, 2012

[Conto] Nos corredores do hospital

Rafaela finalmente havia conseguido aquele tão sonhado estágio em um dos melhores hospitais do país. Depois de tanto ralar na faculdade foi selecionada, depois de dois anos batalhando por aquela vaga. Apesar de um currículo invejável para qualquer enfermeira da sua idade, percebeu que desta vez sua beleza havia ajudado. E muito.

O diretor da área em que estava atuando era um médico de meia idade, não muito além dos quarenta. Desde aquele momento em que entrou em sua sala para a entrevista percebeu que ele tinha um jeito diferente. Extremamente educado, seu olhar era penetrante. Desconcertante. Apesar de um tom muito profissional, percebeu que aquele homem era daqueles dos quais gostava muito; safados na medida certa. Bem ao contrário do seu namorado.

O namoro já se arrastava há seis anos, desde o início da faculdade. No começo até que era legal, os dois com aquele ímpeto natural dos jovens, principalmente em início de namoro. Ele tinha uma pegada ... Uau. Tinha. Há algum tempo o relacionamento resumia-se a jantares, filminhos com pipoca. O sexo existia, mas mecânico e com ar de obrigatoriedade. Nem quando ele começou a trabalhar na melhor academia da cidade, atuando com personal trainer de mulheres maravilhosas a coisa mudou. Rafaela chegou até sentir um pouco de ciúme, depois imaginou que conviver com mulheres daquele nível poderia deixá-lo mais interessado. Nem isso.

Ela recebia inúmeras cantadas, todos os dias. Todas as noites. Mesmo porque ela não se preocupada em disfarçar seu belo corpo, malhado e empinado, sempre por baixo das famosas roupas de enfermeira, fruto dos mais inenarráveis fetiches masculinos. Ela gostava disso, de ser observada, desejada. Cada vez que cruzava com o tal diretor nos corredores do hospital, sentia aquele olhar passear desde a base do seu salto alto até o último fio de cabelo. Como tinha a curiosidade de virar para trás, para ter certeza de que ele torcia o pescoço para observar sua bunda. Ela, que de santa não tinha nada, provocava com olhares, sorrisos e com alguns centímetros a menos de saia.

Tortura era sair daquele ambiente com o sangue fervilhando de tesão e depois ter que assistir a nova das nove na casa da sogra, sentada naquele sofá desconfortável. Para dar vazão a toda aquela vontade, começou a sugerir coisas novas para o namorado. Mas ele se mostrava sempre cansado, indisposto. Há algum tempo começou a se mostrar ainda mais calado.

Bem  na época em que decidiu investir mais seriamente na loucura de seduzir seu diretor, começou a senti-lo diferente e distante. Já não a olhava com o mesmo desejo. Estava muito sério, raramente sorria. Não esperava mais ela passar no corredor para ir atrás, se deliciando com seu andar. Naquele dia, sentada na cantina do hospital junto com uma colega de trabalho, o viu passar de cabeça baixa. "O que aconteceu com o diretor? Ele está tão diferente". A amiga respondeu: "Não está sabendo do babado? A mulher dele o largou. Está saindo com o personal trainer dela e ainda saiu falando que ele não dá conta do recado". Intrigada, Rafaela fez uma última pergunta: "Personal trainer ? Qual é a academia da mulher dele?". Já se levantando, ouviu a resposta: "É a mesma que seu namorado trabalha".

terça-feira, março 13, 2012

Scrum meio período

Antes de mais nada, quem não conhece Scrum por favor dê uma olhadinha aqui [http://pt.wikipedia.org/wiki/Scrum].

A cada dia, a utilização da metodologia Scrum tem crescido na comunidade de desenvolvimento de software. Mesmo que alguns tenham críticas a algum ponto do Scrum, é quase consenso de que ele proporciona excelentes ganhos. Para empresas e equipes que trabalham exclusivamente no esquema de projetos, a metodologia pode ser aplicada naturalmente. Problemas e dúvidas surgem quando se quer implantá-la em equipes de desenvolvimento de software que realizam atividades paralelas, como por exemplo atendimento à usuários e suporte técnico.

Uma das principais características do Scrum é definir a "quantidade" de coisas (backlog) que poderá ser feita pela equipe dentro de um determinado período de tempo (Sprint). Mas de que forma esta equipe poderá definir com quanto poderá se comprometer se não sabe quanto tempo poderá se dedicar ao projeto?

Uma das saídas seria determinar um percentual do tempo que será dedicado exclusivamente ao projeto, baseando-se em algum tipo de métrica histórica. Alguém então poderia dizer: "Bem, podemos considerar que nossa dedicação exclusiva será de 50%, ou seja, 4 horas por dia. Perfeito, podemos começar".

Mas ... o que acontecerá no dia em que não houver nenhuma atividade, nenhuma interrupção causada por fatores externos ao projeto? Os desenvolvedores ficarão metade do dia à toa? Claro que não ... irão trabalhar no projeto, naturalmente. Aí temos um novo problema: no Scrum é importantíssimo que com o tempo o time consiga ter uma boa noção de quanto trabalho (quantidade de pontos) consegue realizar durante um Sprint. Se o tempo de trabalho dedicado ao projeto variar a cada Sprint, essa métrica não será confiável, tornando praticamente impossível fazer um planejamento de duração total dos projetos.

Tenho lido bastante coisa sobre Scrum e não encontrei ninguém falando sobre esta situação. Os livros e sites falam de Scrum apenas para a realidade de uma fábrica de software ou departamentos exclusivamente dedicados a projetos. Como minha experiência com Scrum se resume também a cenários como estes, não tenho experiência prática para dar uma solução mágica. Penso, entretanto, em uma alternativa que considero viável.

No início de um Sprint, a equipe se compromete com o P.O. (Product Owner, aquele que define o que tem que ser feito) a entregar determinadas funcionalidades ao fim do prazo determinado. Em situações em que a equipe não tem dedicação exclusiva a projetos, entendo que deverá haver uma flexibilidade muito grande do P.O. em aceitar uma negociação com o Scrum Master no sentido de cancelar ou adicionar estórias no decorrer do Sprint. Se o time está conseguindo se dedicar menos que imaginava, negocia a retirada de algumas estórias do Sprint. Por outro lado, se estiver tendo mais tempo, pode puxar estórias novas. Para que isso funcione, além de um excelente relacionamento entre P.O. e Scrum Master, é necessário que o primeiro mantenha o backlog muito bem priorizado e com o mínimo de dependências possível, de forma a ser possível ter a flexibilidade mencionada.

Fazendo desta forma, acredito que a equipe consiga ter um primeiro contato com o SCrum. Com o tempo, será possível adaptar-se ainda mais à cada realidade, conseguindo dimensionar de uma maneira mais exata com quantos pontos poderá se comprometer, diminuindo cada vez mais a necessidade de ficar negociando entrada ou saída de estórias no decorrer do Sprint.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Livros lidos em 2011

O ano de 2011 não foi um dos mais produtivos para mim em termos de leitura. Mudança de trabalho, muitas viagens ... tudo isso contribuiu de alguma forma para diminuir a minha média anual, que particularmente acho aquém do que seria o indicado. Segue abaixo a lista das obras lidas no último ano:

1) Uma breve história do século XX
2) Os segredos da ficção
3) Contos húngaros
4) Madame Bovary
5) Então você quer ser escritor?
6) Boa ventura
7) Cafajeste, substantivo feminino
8) Shopping Centers
9) Escolher ou ser escolhido
10) Orgulho e preconceito
11) O discurso do rei

Destes, o melhor sem nenhuma dúvida é "Orgulho e preconceito", com louváveis menções à "Madame Bovary" e "Boa ventura".

terça-feira, janeiro 03, 2012

[Livro] Você é do tamanho dos seus sonhos, de César Souza

Definitivamente não posso ser considerado um dos maiores apreciadores do gênero autoajuda. Acredito que nesta área existe uma quantidade muito maior de livros ruins do que em outras. Muito deles não são só ruins mas também enganosos. Mas, é claro, não podemos generalizar. Existem bons e honestos autores de autoajuda que devem ser respeitados, à despeito de eu gostar ou não de seus livros. Por qual motivo então eu li "Você é do tamanho dos seus sonhos"? Simplesmente porque o ganhei de presente de pessoas que tenho bastante admiração e em um momento de grande mudança profissional. Precisava convencer a mim mesmo de que havia tomado a decisão certa. Não haveria momento mais adequado para um livro de autoajuda. O livro é de leitura rápida e fácil. Cheio de exemplos e estórias, facilita bastante a fluidez e não cansa o leitor. O currículo do autor Cesar Souza, que por muitos anos trabalhou na Odebrecht, colabora para dar credibilidade ao que fala, ao contrário de outros autores de autoajuda que a única coisa que fizeram na vida foi escrever livros e dar palestras. Acredito que o objetivo principal do livro seja o de estimular os leitores a identificarem e acreditarem em seus sonhos, sejam eles pessoais ou profissionais. O autor até que consegue em alguns trechos, mas o livro em alguns momentos soa superficial demais. Em minha opinião, o pior problema de livros como esses é o de tentar fazer o leitor acreditar que basta força de vontade para conseguir as coisas. É claro que esse é o primeiro passo, mas tem muito mais coisa envolvida. Ao citar e enfatizar apenas histórias de sucesso, livros como este, de certa forma, escondem que para cada sucesso pode ter havido inúmeros fracassos. É bonito analisar, depois de saber que deu certo, casos em que determinada pessoa arriscou tudo, vendeu tudo para apostar no seu sonho. Poucos falam que, ao arriscar tudo por um sonho, muitos acabaram colocando a si mesmos e a família em situação extremamente difícil. Recomendo a leitura para quem gosta do assunto, mas é necessária uma leitura crítica, com os pés no chão, como diz o próprio autor em algumas passagens.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Publicação em coletânea de contos

Como muitos já sabem, além de ler gosto também de escrever. É óbvio que trata-se de uma atividade amadora, sem muitas aspirações. Fiquei muito satisfeito quando em agosto de 2010 tive um dos meus contos aprovados para ser publicado em uma coletânea .

Acabei divulgando a notícia entre amigos, publicando no blog, Twitter, etc. Era natural que as coisas demorassem a acontecer, afinal havia vários autores envolvidos e existe uma burocracia imensa para conseguir publicar um livro. Mas ... algum dia iria sair o livro. Ou não ?

A verdade é que um ano e meio depois nada de livro, e nada de nada. Tentei buscar informações no blog Na Ponta dos Lápis que promoveu o concurso. Sem sucesso. Consegui contactar, através do Twitter, Leonardo Schabbach, responsável pelo blog e pela promoção. Para minha surpresa, me relatou que não consegue há muito tempo contato com a editora que ficara responsável pela publicação. Existe contrato assinado, inclusive com os autores.

Fica difícil saber exatamente o que aconteceu. De qualquer maneira, vejo a situação toda como uma falta de respeito àqueles que confiaram no blog e na editora. É decepcionante. No mínimo, deveria haver maior preocupação em comunicar o que aconteceu e o que está acontecendo. Estou postando isso para, além de expressar minha indignação, dar uma satisfação aos amigos que compartilharam comigo a felicidadade de uma primeira publicação.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

[Livro] O discurso do Rei, de Mark Logue e Peter Conradi

Tive o cuidado de ler o livro antes de ver o filme. Em obras como esta, para se ter uma análise isenta, creio que seja bom ter esse cuidado.

A verdade é que "O discurso do rei" é uma obra que se mostra despretensiosa. Em termos de literatura, não acrescenta nada, e nem acho que a intenção tenha sido essa. Sem dúvida alguma, podemos considerá-lo como um livro "oportunista", buscando lucros através da evidência que o filme deu ao assunto.

Em resumo, o livro trata das dificuldades de fala, principalmente a gagueira, do futuro rei britânico Gerge VI. Considerando que, em especial após ser alçado ao trono, um de seus principais papéis era fazer discursos e pronunciamentos, teve a ajuda de um terapeuta da fala que acabou virando seu amigo particular.

Mas, independente da questão da qualidade literária e dos fins comerciais, sua leitura é agradável e bastante simples. Para leitores que apreciam fatos e personagens históricos, acaba sendo bastante interessante. Algumas passagens sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, são bastante curiosas e originais mesmo para alguém que, como eu, já leu bastante sobre o tema.

É um livro curto, leitura leve e, como já comentado, sem muitas pretensões. Para quem gosta do assunto, acaba sendo um programa divertido.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Esforço extra

Um dos principais desafios enfrentados no gerenciamento de equipes de TI é o cumprimento dos prazos acordados com os clientes (sejam eles internos ou externos), especialmente quando metodologias ágeis são utilizadas, com entregas em curtos períodos de tempo. Qualquer situação atípica ou inesperada pode colocar tudo a perder.

Os desenvolvedores, como qualquer ser humano (apesar de alguns não parecerem ser), estão sujeitos a ficarem doentes, terem problemas pessoais ou não renderem adequadamente. Indefinições ou mudanças de requisitos, apesar de totalmente indesejáveis, podem surgir durante o processo de desenvolvimento. Isso sem contar as dificuldades técnicas não esperadas, fazendo com que uma atividade que deveria consumir um dia se estenda por três ou quatro.

Diante de um cenário tão caótico, não é incomum estarmos há alguns dias de realizar a entrega ao cliente e a situação se mostrar um tanto quanto preocupante. Nesses momentos, é importante tomar decisões. É possível negociar com o cliente a data de entrega? Em alguns casos sim. Na grande maioria deles, é inviável ou muito desgastante. Surge então o grande vilão das equipes de desenvolvimento: o famigerado "esforço extra".

Atualmente, grande parte dos profissionais de TI trabalham no esquema conhecido como "PJ", ou seja, não são funcionários da empresa. Como quase tudo nessa vida, há vantagens e desvantagens para ambos os lados. O profissional, nesta situação, emite uma nota fiscal à empresa cobrando pelas horas que ele trabalhou em um determinado período. No caso do "esforço extra", poderia até ser vantagem para o profissional trabalhar mais horas, porque ganharia mais. Mas nem sempre a situação é tão simples.

A empresa, que recebe de seu cliente para realizar um determinado trabalho não pode simplesmente começar a pagar mais para seus desenvolvedores, sob pena de reduzir sua margem de lucro. O cliente, naturalmente, também não vai querer pagar a diferença. O desenvolvedor, que em alguns casos pode até parecer mas não é bobo, dificilmente irá querer trabalhar de graça. A situação para os profissionais que trabalham sob o regime da CLT varia um pouco, mas acabam tendo situações semelhantes. Como viabilizar então o "esforço extra"?

Existem duas formas conduzir essa negociação. A primeira e mais simples, consiste em reunir a equipe e esbravejar: "É o seguinte: temos que entregar isso na próxima segunda-feira, sem falta. Não há negociação possível com o cliente. Resolvam. Vocês devem se virar para fazer as coisas acontecerem. Ah, um detalhe: não tenho como autorizar horas extras porque o contrato não permite." Essa abordagem funciona? Algumas vezes sim. Alguns desenvolvedores ficarão com receio de serem demitidos ou mau vistos pela empresa e realizarão o trabalho necessário.

Uma segunda forma de resolver essa difícil equação é o gerente primeiramente reconhecer que a situação não foi gerada exclusivamente por culpa da equipe. Fatores externos podem ter influenciado decisivamente. Deve então reunir a equipe, expor a situação e quais os impactos ruins que a não entrega poderia causar para a empresa, para o projeto e para eles próprios. Deve deixar claro que somente eles podem mudar a situação, dando ênfase à importância que cada um tem na finalização do trabalho. Deve também ser sincero o suficiente para declarar que talvez as horas adicionais não serão pagas, mas que poderá haver compensação delas em folgas. Tudo isso sem qualquer tom ameaçador ou de tragédia.

Como eu comentei anteriormente, a primeira abordagem pode e deve funcionar em várias situações. Deverá funcionar, entretanto, somente nas primeiras vezes que acontecer. Chegará um momento em que os desenvolvedores, os melhores principalmente, começarão a procurar outra empresa para trabalhar. Utilizando a segunda forma, por outro lado, o gerente e a própria empresa reconhecerá de forma sincera as causas do problema, será claro ao posicionar sobre a importância de realizar a entrega na data acordada e manterá uma postura positiva e de apoio aos desenvolvedores. Deve também propor a discussão posterior das causas, de forma a buscar maneiras de evitar a sobrecarga de trabalho. Se a equipe é realmente profissional e comprometida, a chance de realizarem o esforço adicional é grande.

Existe infelizmente, principalmente na área de TI, uma cultura de ver de forma muito natural cargas horárias muito acima do considerado ideal, trabalhos de madrugada e finais de semana. Obviamente que algumas situações exigem e o profissional deve estar consciente disso. Mas, na minha opinião, situações como essa devem ser a exceção e não a regra. É muito importante aprender com os erros e realizar de forma efetiva alterações para que situações de estresse não se repitam continuamente.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Forme um sucessor ... e um sucessor para seu sucessor.

Vamos imaginar dois cenários:

A) Um gerente tirou 7 dias de férias e durante esse período foi contactado pelo celular inúmeras vezes para resolver problemas e dar direcionamentos à equipe que ficou na empresa. Alguns meses depois, recebeu uma excelente proposta profissional e decidiu trocar de emprego. A empresa sabia que não podia perdê-lo, fez contrapropostas e dificultou a sua demissão. Nas semanas seguintes à sua saída a empresa quase parou, precisou retornar à noite e nos finais de semana até que os remanescentes conseguissem "tocar o barco" sozinhos.

B) Um gerente tirou 20 dias de férias e durante esse período precisou responder dois emails com algumas dúvidas da equipe que ficou na empresa. Alguns meses depois, recebeu uma excelente proposta profissional e decidiu trocar de emprego. A empresa entendeu suas novas aspirações e não criou empecilhos. Nas semanas seguintes à sua saída a empresa continuou suas atividades normalmente. A equipe remanescente conseguiu, mesmo que com alguma dificuldade inicial, "tocar o barco" sozinha.

Baseado apenas no texto acima, qual dos dois gerentes você afirmaria que é melhor profissional, que agregou mais valor à empresa que trabalhou? Aquele que pouco se precisou dele durante as férias e após a sua saída ou o outro do qual a empresa precisou a todo o momento?

Muitos poderiam afirmar que o melhor profissional é o gerente do cenário A. É visível a sua importância para a empresa, para o negócio como um todo. Isso mostra o seu conhecimento dos processos, a confiança que a diretoria tem nele e também a dependência criada por sua equipe. Já o outro ... ninguém precisou dele durante sua ausência. Seria totalmente dispensável para a empresa, facilmente substituído por outro. Teria contribuído pouco com o seu trabalho.

Eu afirmo, com toda a convicção, o contrário. Soube delegar. Dividiu as informações com sua equipe e com seus colegas de trabalho. Tornou o processo e a empresa independentes de sua pessoa, de sua presença. Colaborou com seu trabalho, sua experiência, seu conhecimento e, quando achou que deveria seguir novos caminhos, recebeu a gratidão de seus superiores, conscientes de que merecia buscar algo ainda melhor para sua carreira.

Muitos podem pensar que o profissionais do tipo B, por mais competentes que possam ser, correm mais risco de serem demitidos. Isso é uma verdade relativa. Caso o tipo B trabalhe em uma empresa que saiba reconhecer suas qualidades, que não queira ficar refém de uma determinada pessoa, o risco de ser demitido é baixíssimo. Será extremamente valorizado. Por outro lado, se trabalhar em um local que valoriza somente resultados de curto prazo, que acham que os funcionários que pedem demissão são "traíras", que nunca encontrarão outro lugar melhor, realmente correrá um grande risco de ser demitido. Sorte dele!

O recado é que bons profissionais não devem ter medo de se tornarem dispensáveis. Antes que isso aconteça aparecerá coisa melhor. Além disso, é de suma importância formar um sucessor. Aquele braço direito, que poderá substitui-lo quando sair da empresa, quando ficar doente ou até mesmo para poder gozar de umas merecidas férias. Forme também um sucessor para seu sucessor. A empresa lhe ficará grata por muito tempo.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Você é insubstituível, seu trabalho não!

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer "você é insubstituível"? Quando o contexto da frase refere-se ao ambiente profissional, geralmente ela é usada para dizer que uma determinada pessoa é extremamente importante para a empresa onde atua. Muitas vezes deseja-se dizer que a empresa não é nada sem aquela pessoa, que se um dia ela for buscar novos ares as coisas não seguirão bem por aqueles lados.

Muitos criticam pensamentos como esse, argumentando que poucas empresas fecharão suas portas pelo simples fato de que um profissional, por mais importante que seja, vá trabalhar em outro lugar. Estes diriam "ninguém é insubstituível". Eu, particularmente, sou partidário da primeira abordagem. Eu realmente acredito que todos são insubstituíveis. Mas cabe aqui uma explicação e principalmente uma reflexão.

Quando digo, por exemplo, que ninguém poderia me substituir em meu emprego atual, não estou me supervalorizando nem tão pouco me achando um profissional acima dos outros. O que quero dizer é que ninguém é igual a ninguém, de modo que nenhuma pessoa no mundo faria o meu trabalho da maneira como eu faço. Eu tenho meu jeito de falar com os subordinados e também com os superiores. Tenho minha forma de enxergar as coisas, de atacar um problema, de organizar uma reunião. Muitos poderiam fazer tudo isso melhor do que eu. E pior também. Mas igual, nunca! Nesse sentido, definitivamente é natural afirmar, com toda a convicção: eu sou insubstituível.

Entretanto, muitas vezes essa insubstitualidade (será que existe essa palavra?) é vista de forma enganosa, no sentido de que realmente uma empresa passaria maus bocados quando perdesse um funcionário. É claro que, sem dúvida alguma, existem profissionais que são de extrema importância para as empresas onde trabalham, seja pela capacidade técnica e humana ou mesmo pelo conhecimento que tem de como as coisas funcionam. Mas, salvo raras exceções, por mais que a empresa sinta a falta de alguém que por lá esteve durante muito tempo, dificilmente ela irá à falência por causa disso. Da mesma forma que pessoas se adaptam diante das adversidades, empresas também o fazem. E eu diria mais, mudanças muitas vezes são benéficas e essenciais, à despeito de uma dificuldade inicial. É através delas que novos talentos surgem, novas ideias se desenvolvem, os pensamentos e atitudes se renovam.

Todos devemos nos preparar para que, mesmo fazendo um excelente trabalho, algum dia possamos ser substituídos por alguém que mesmo não fazendo melhor, fará diferente. E, depois de algum tempo, poucos sentirão falta do nosso trabalho. Mas muitos continuarão, por muito tempo, sentindo a falta da maneira como fazíamos este trabalho.

sexta-feira, junho 24, 2011

[Livro] Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

Eu sempre tive dificuldade em responder a pergunta: Qual é o melhor livro que você já leu? Não tenho mais, posso afirmar com toda a certeza que Orgulho e Preconceito foi o melhor livro que já li.

Escrito no século XVIII e retratando a sociedade inglesa daquela época, o livro é um dos maiores clássicos da literatura mundial. A história principal gira em torno de uma família focada em arrumar casamento para suas filhas. Com personagens curiosos e inteligentes, Austen nos permite conhecer como funcionavam as relações pessoais naquele século. É curiosíssimo e delicioso ver como as coisas e preocupações mudaram no decorrer do tempo. Sem televisão, internet e outras modernidades, as pessoas usavam seu tempo em atividades hoje infelizmente esquecidas e desvalorizadas. Passavam longas horas simplesmente conversando, ouvindo e tocando música, organizando e participando de bailes, apreciando a natureza e refletindo sobre a vida.

Nunca apreciei o estilo de escrita baseado em muitos diálogos. Também acho enfadonho excessivas descrições de ambientes e de pessoas, recurso que muitos autores usam para substituir a falta de talento e para fazer o romance render mais páginas. Orgulho e Preconceito me fez refletir e reforçar minhas opiniões sobre estes dois pontos, embora sob diferentes aspectos. A qualidade e riqueza dos diálogos escritos por Austen são arrebatadores. Sem perceber acabamos imersos pelo vocabulário rico, palavras bem escolhidas e a detalhada análise humana e social existente. A profundidade psicológica das personagens Elizabeth e Mr. Darcy enriquecem de forma ímpar a cultura de quem lê este romance.

Existem clássicos da literatura que leio apenas para conhecê-los, para ter contato com algum estilo ou autor renomado. Não vejo a hora de terminá-los pois muitas vezes não há prazer na leitura. Com Orgulho e Preconceito não tive esse problema. Mesmo ciente de que se tratava de uma obra reconhecida através dos tempos, acabei tão empolgado e motivado com tudo que não dava vontade de parar. O texto, apesar do riquíssimo vocabulário, não é difícil, plenamente viável a todas as categorias de leitores. Se ainda não leu, não perca mais tempo.

quarta-feira, maio 25, 2011

[Livro] Escolher ou Ser Escolhido?, de Marcelo Jabur

O que pensar de um livro que pretende dar dicas sobre opções de carreira mas que seja diminuto em tamanho, tenha pouquíssimas páginas, use letra grande e espaçamento duplo? Seria possível transmitir algo realmente importante, sério e útil desta forma?

O que Marcelo Jabur consegue em "Escolher ou ser escolhido" nada mais é do que repetir o óbvio, aquilo que todo bom profissional já ouviu falar e já leu em vários livros. Isso é ruim? Neste caso a resposta é não, muito pelo contrário. O maior mérito de Jabur é reunir em um único livro, de forma extremamente clara e fácil de entender, pontos importantes que todo mundo sabe, mas poucos efetivamente vivenciam.

São temas que todos nós precisamos constantemente reavivarmos em nossas vidas, para que não fiquem somente na teoria. Quem não sabe que toda e qualquer atitude que tomamos em nossa carreira vai refletir no futuro? Quem não sabe que o sucesso ou o fracasso não são frutos de uma única decisão e sim da somatória de todas elas? Que devemos conhecer os anseios particulares de cada membro da equipe? Todos sabem, mas poucos realmente agem desta forma no dia-a-dia.

É nesse sentido que "Escolher ou ser escolhido" se mostra útil; naquele momento em que falta motivação, falta um direcionamento, falta saber o que pode estar errado, um rápido insight pode nos trazer de volta à realidade e à consciência de que, mais do ninguém, somos nós mesmos os responsáveis por nossa carreira.

43 minutos do segundo tempo ...

Gostaria de solicitar aos leitores desse blog e àqueles que acabam chegando aqui por acaso, um momento de "licença poética".

Desta vez não vou falar sobre liderança, sobre livros, sobre contos. Vou falar sobre uma das minhas maiores paixões, o Flamengo. É até repetitivo eu dizer aqui que somente quem torce pra este time sabe o que é ser rubro-negro. Mesmo porque eu nunca fui e nunca serei outra coisa, fato que me impedirá de saber a diferença. Não é um simples time de futebol, é uma "religião".

O fato que me motivou a escrever sobre o grande poderoso Mengão é que no próximo dia 27 de maio serão completados 10 anos do segundo jogo da final do Campeonato Carioca de 2001. Este jogo, que acabou coroando o time rubro-negro como Tricampeão Carioca (1999-2000-2001), tem um lance antológico.

Eu, morador de Ribeirão Preto/SP, vivia naquele domingo de 2001 uma outra situação interesssante. O Botafogo local jogava a segunda partida da final do Campeonato Paulista com o Corinthians. Havia perdido o primeiro jogo, em casa por 4x0, e era praticamente impossível reverter a situação jogando no Pacaembu. Mas a parte botafoguense da cidade estava orgulhosíssima, como não poderia deixar de ser.

No Rio de Janeiro, o Flamengo havia perdido o primeiro jogo da decisão por 2x1 para o Vasco. Não bastaria vencer o segundo jogo pelo mesmo placar porque o time cruzmaltino tinha a vantagem. Era necessário vencer por dois ou mais gols de diferença. Eu havia almoçado na casa de minha sogra, em uma cidade próxima à Ribeirão. Voltando para casa, na estrada, consegui sintonizar uma estação de rádio que transmitia direto do Rio. O Flamengo vencia por 2x1, placar insuficiente para suas pretensões.

Cheguei em casa, liguei rapidamente a TV, que mostrava a festa do título do Corinthians em São Paulo. Já estavam com a taça na mão. Meu raciocínio óbvio é que o jogo do Rio também já havia terminado, afinal deveriam ter começado no mesmo horário. Foi quando, olhando pra TV vi aquela bolinha das transmissões da Globo, indicando que saiu gol em outro jogo. O narrador de Corinthians x Botafogo-SP dá uma pausa, e diz algo semelhante a isso: "No RJ, Petkovic faz o terceiro do Flamengo".

Muitos se perguntam porque o rubro-negro dá tanta importância a este gol. Não era final de Campeonato Brasileiro, Libertadores ou Mundial. Em relação ao título em si, apenas mais um Campeonato Carioca, título que o Flamengo tem cansado de ganhar. A questão é que realmente há algo diferente com aquele gol.

O time havia perdido o primeiro jogo. O jogo era contra o Vasco. O técnico do Flamengo era ninguém menos que Mário Jorge Lobo Zagallo. Pet era (ainda é e sempre será) ídolo. Camisa 10 nas costas, nem preciso dizer quem já usou. Local falta relativamente longe do gol. Cobrança perfeita. Curva impressionante. (Bom) Goleiro do Vasco pula muito bem. Não consegue alcançá-la (nenhum goleiro do mundo conseguiria). Gol aos 43 minutos do segundo tempo.

Talvez seja difícil explicar e ainda mais complicado fazer os (poucos) não rubro-negros sentirem esse momento da forma adequada. Não custa tentar. Postarei abaixo alguns vídeos sobre esse lance. Quem não for flamenguista pode assistir, mas somente se não tiver receio de virar a casaca depois.

Narração de Luis Penido, da Rádio Tupi (as imagens não são boas, mas a emoção é fantástica)



Transmissão da Globo



Reportagem da Globo sobre o jogo



Documentário do GLOBOESPORTE.COM sobre este momento épico

http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2011/05/documentario-exclusivo-lembra-os-dez-anos-do-gol-historico-de-petkovic.html

terça-feira, maio 17, 2011

Escolher ou Ser Escolhido?

Participei ontem, na livraria FNAC do Ribeirão Shopping, do lançamento do livro "Escolher ou Ser Escolhido? Qual é a opção para a sua carreira?", do coach executivo Marcelo Jabur.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Marcelo em um curso de liderança que fiz em sua empresa Instrumenta, onde pude aprender bastante e começar a admirar o trabalho deste grande profissional. Demonstrando grande conhecimento e segurança no que fala, Marcelo é capaz de transmitir suas ideias e convicções de forma leve e natural, mostrando-se um profissional com grande empatia.

Na noite de ontem, após ouvir uma breve palestra, tive a honra de ter um exemplar de seu livro autografado, oportunidade em que pudemos nos rever e trocar algumas ideias rápidas. Ainda não li a obra, o que farei nos próximos dias. Mas, sem medo de errar, já indico-a a todos que gostam do tema. Logo que finalizar, postarei aqui uma resenha.

Para maiores informações sobre seu trabalho, acessem o site pessoal de Marcelo Jabur.

Já fiz a inclusão do livro no site Skoob, acessem !

sexta-feira, maio 13, 2011

[Livro] Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça

Sabe aqueles livros gostosos, fáceis de ler, com poucas páginas, fonte grande e espaçamento entrelinhas confortável? São perfeitos para aqueles períodos da vida em que precisamos de ler algo leve, que não exija um dicionário ao lado. Um livro pra divertir.

É exatamente isso que "Canalha, substantivo feminino" consegue: divertir. Acredito, inclusive, que esse foi o objetivo da autora. E é com essa escrita despretensiosa que Martha Mendonça nos conta a história de seis mulheres, de idades variadas, unidas por uma característica historicamente associada aos homens: a canalhice.

Nada mais atual; como me disse um amigo dia destes, hoje em dia está mais difícil encontrar uma mulher que preste do que um homem decente. As mulheres conquistaram seu devido espaço no mundo e uma vez menos dependentes da proteção de pais, namorados e maridos, se dão a chance de exercerem seu lado sacana nas relações afetivas.

Os contos são de tamanho médio, mas de leitura rápida. Excelente livro para ter à mão, lendo um conto a cada intervalo que a vida nos dá.

Naturalmente as mulheres vão gostar um pouco mais das histórias. Mas homens bem humorados e seguros de si mesmo irão se deliciar. Afinal, apesar de muitos não admitirem, os homens gostam mesmo é das mulheres interessantes e sacanas, no bom sentido, é claro.

[Livro] Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo

Lembro-me de uma brincadeira da época do colégio em que falávamos que a caravela de Cabral deveria ter afundado no meio do Atlântico para que os britânicos tivessem descoberto o Brasil; pelo menos não precisaríamos ter aulas de Inglês. Ou pelo menos a Espanha; não seríamos os únicos a falar a língua de Camões em nosso continente.

Mas não teve jeito. Foram mesmo os portugueses que descobriram o Brasil. E depois de ler este livro, posso dizer com toda a certeza: infelizmente foram eles.

Nada contra, obviamente, nossos queridos irmãos lusitanos. Nada contra principalmente os portugueses de hoje em dia, que porventura podem ler o que estou escrevendo aqui e se sentirem ofendidos. Definitivamente não é o meu objetivo. Mas uma verdade não pode ser negada: Portugal conseguiu desperdiçar uma das maiores riquezas da história da humanidade, jogando no lixo um futuro promissor tanto para sua própria pátria quanto para o nosso querido Brasil baronil.

Lucas Figueiredo fez um trabalho primoroso. Seu livro é extremamente bem documentado, com referências bibliográficas a cada capítulo! Possui também fotos incríveis e mapas de época interessantíssimos. Trata-se de uma obra deliciosa para aqueles que, como eu, acreditam que não é possível entender o presente e planejar o futuro sem conhecer o passado. O bom é que Lucas conseguiu repetir o feito de outros autores de livros históricos recentes: escreveu de forma incisiva, baseado em um monte de dados mas sem se tornar chato e monotóno. Quem dera todos os livros didáticos de História do Brasil fossem assim.

A realeza portuguesa apostou tudo na descoberta de ouro no Brasil. Na época, o país atravessava uma situação financeira não das melhores. Precisava povoar a colônia rapidamente, sob pena de que os espanhóis o fizessem antes. Com população reduzida, mandaram aos trópicos o que tinham de pior: ladrões, criminosos e aventureiros sem nada a perder. Depois de muito tempo sem nenhum retorno, aos poucos a riqueza do solo brasileiro aflorou, permitindo aos nobres e reis portugueses viverem décadas de vida boa, desperdício e ignorância financeira. Enquanto os ingleses investiam sua riqueza de forma planejada e inteligente, os lusitanos gastavam com festas e inúteis tentativas de se mostrarem à altura cultural de seus vizinhos.

"Boa Ventura!" vale cada página lida. E fica difícil disfarçar a decepção ao terminar a leitura, decepção ao ver que poderíamos ser um país muito mais rico e evoluído. O que não dá pra fazer é jogar a culpa nos portugueses, eles têm mais consciência disso do que nós mesmos.

quinta-feira, maio 12, 2011

Apoio à fundação Dorina Nowill: por livros acessíveis aos cegos

Segundo o próprio site, a fundação Dorina Nowill:

Há mais de seis décadas, a Fundação Dorina tem se dedicado à inclusão social das pessoas com deficiência visual, por meio da produção e distribuição gratuita de livros braille, falados e digitais acessíveis, diretamente para pessoas com deficiência visual e para mais de 1.400 escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil. A Fundação Dorina Nowill para Cegos também oferece, gratuitamente, programas de serviços especializados à pessoa com deficiência visual e sua família, nas áreas de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade.

A instituição produziu ainda mais de 1.600 obras em áudio e cerca de outros 900 títulos digitais acessíveis. Além disto, mais de 17.000 pessoas foram atendidas nos serviços de clínica de visão subnormal, reabilitação e educação especial.

Sinto que uma iniciativa como essa merece o apoio deste blog e de toda a comunidade leitora/blogueira de que ele faz parte.

Descubra se a Fundação Dorina Nowill está em sua cidade: direta ou indiretamente, a fundação está em TODOS os estados brasileiros.

Faça uma doação

sexta-feira, maio 06, 2011

Os 10 mandamentos do leitor

Retirado do blog Livros só mudam pessoas

Publicado originalmente por Alberto Mussa, no Entre Livros

I – Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II – Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III – Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV – Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V – Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI – Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

VII – Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

VIII – Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

IX – A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

X – Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.

Blogagem Coletiva: Qual livro indica e qual não indica?

O blog Devaneios e Desvarios propôs mais uma blogagem coletiva:

1) Que livro você mais gostou de ler, que marcou sua vida, e que você recomendaria enfaticamente aos seus amigos?

Eu gostaria de citar não um livro e sim uma autora: Agatha Christie. Ela foi responsável pela minha descoberta da literatura de entretenimento, aquela em que lemos porque gostamos e sentimos prazer e não porque somos obrigados. Obviamente que alguns livros são melhores que outros mas de uma forma geral todos que já li são excelentes, empolgantes e deliciosos. Quem nunca leu e quiser começar, indico "Assassinato no Expresso do Oriente".

2) Por outro lado, há algum livro que você se arrependeu de ter lido, do qual desaconselharia a leitura?

Eu costumo analisar bem um livro antes de comprá-lo e iniciar a leitura. Na grande maioria das vezes me baseio em resenhas de autores que respeito e informações de outros leitores. Isso diminui em muito a chance de errar. De qualquer maneira, tem dois livros que merecem meu comentário. Um deles é "Inteligência na guerra", de John Keegan. Eu gosto muito do assunto, fiz um esforço pra ler mas não consegui nem terminar. Muito chato e mal escrito. O outro é "Macunaíma", de Mário de Andrade. Esse eu fui obrigado a ler na época de colégio e simplesmente odiei.

quinta-feira, abril 28, 2011

Escrever contos, por Miguel Sanches Neto

Escrever contos
muito pouco te a ver
com contar casos
que ouvimos na rua,
soubemos por amigos,
jornais ou pela tevê.
Um conto é um corte
na pele fina do hoje
e ele sangra tanto
que, para estancá-lo,
resta-nos o manto
de termos cotidianos.

Não escreva contos
para fazer graça.
Só admita a piada
quando for amarga.
A tristeza do tempo
que nunca pára,
mesmo o amor maior
nos espeta o peito
com sua pior farpa.
Conto repele risadas.
Isso é para a crônica
que ajuda a digerir
as comidas pesadas.

Apenas escreva contos
em estados de fúria,
com um ódio santo
contra toda a turba.
Um conto necessário
é um ato de cura,
uma catarse em meio
à insanidade de tudo.
Escreva contos para
emudecer esse mundo
tomado pela usura.

Não escreva contos
como quem brinca
com palavras móveis,
incrustáveis nas frases.
Conto já nasce pronto.
Todo esforço vem antes,
ao se sofrer o corte
e sangrar até a morte.
Não é com palavras
que se faz um conto,
mas com sentimentos
imensos de desencontro,
entre o eu e o mundo,
mesmo quando o mundo
é quem nós somos.

Tente escrever um conto
que te prepare um pouco
para te ver como morto.
Estar vivo é algo falso
porque breve em demasia.
Todo conto é um canto,
um canto de despedida.

Não escreva contos
com palavras eruditas.
Conto é linguagem viva,
a mesma usada no bar,
na hora do namoro,
no balcão da padaria.
Palavras do dia-a-dia,
que súbito se concentram
para dizer de uma vez algo
que ninguém mais diria.

Escreva os seus contos
como quem se suicida,
sem deixar bilhetes
dando os tais motivos.
Um conto não se explica.
É morte imprevisível,
a vida como enigma,
a força de um mistério
que não se silencia.

Só escreva os seus contos
quando não houver quando.

Fonte: http://herdandoumabiblioteca.blogspot.com/2010/09/escrever-contos.html

Estou lendo ...