quinta-feira, agosto 26, 2010

[Conto] Dor de dente

Dor pior que a de dente apenas a de parto. Não sei se é verdade e não quero saber, mesmo porque se algum dia eu fosse ter um filho, seria por cesariana. Naquele domingo à noite atingi o limite da dor suportável e liguei para meu dentista, consciente de que ele não ficaria nem um pouco satisfeito com a ligação, principalmente se estivesse saboreando uma pizza de quatro queijos naquele momento. Não atendeu. O que fazer então? Telefonei para alguns amigos, na vã esperança de que dessem fim, de alguma forma, ao meu martírio. Um deles, talvez o que eu tivesse menos esperança que pudesse ajudar, disse:

- Conheço uma dentista que atende casos iguais ao seu, de emergência. Minha mãe já precisou. Peraí, vou te passar o número.

Aguardei até que ele retornasse, já com papel e caneta preparados. Coitado, mal ele pronunciou o último dígito eu já havia desligado. Não aguentava mais aquele suplício. Nem havia passado pela minha cabeça que a dentista não atenderia, que não daria certo. Estava confiante até o sexto toque ... Já ia desligar quando ouvi:

- Doutora Elza, boa noite.
- Boa noite, Doutora Elza. Estou com uma dor de dente inenarrável, peguei seu contato com um amigo, gostaria de saber se pode me atender agora.
- É claro, menino. Pode vir imediatamente, estarei lhe esperando. Anote o endereço.

No mesmo papel usado para anotar o número do telefone lá estava agora o endereço da minha salvação. Peguei a chave do carro e saí em disparada, com o objetivo claro de percorrer aqueles dez quilômetros em menos de cinco minutos.

O local era agradável, moderno e bem limpo. Toquei a campainha e Doutora Elza apareceu rapidamente, com seu jeito bonachão e simpático. Entrei. Mal podia esperar a hora de ouvir o barulho do motorzinho dando início ao fim da minha dor. Sentei-me na cadeira, Doutora Elza percebendo meu martírio fez algumas perguntas rápidas sobre o local da dor e já iniciou os procedimentos. Eu lá, com a bocona aberta a ponto de doer meus maxilares e Doutora Elza começou a conversar comigo, tentando transformar um monólogo em um diálogo quase impossível. Todo mundo já passou por esse tipo de situação, de estar com um dentista que acha que você vai conseguir responder às perguntas que lhe faz estando com a boca aberta, duas mãos e um motorzinho dentro. Mas Doutora Elza era a pior de todas que eu conhecia. Perguntou meu nome completo, minha idade, se era casado, se tinha filhos, no que eu trabalhava, se tinha cachorro ...

- Mas me conta, meu filho ... Você, tão bonito assim, ainda solteiro?
- Ãã!
- Que coisa, né? Hoje em dia não está fácil conseguir uma mulher decente. Você não tem nem namorada?
- Ã..ãã!
- Ah, namorada você tem!
- Ã .. nãã!
- Agora entendi, não tem nem namorada. É, como eu estava dizendo, hoje em dia é mais fácil achar um homem decente do que uma mulher honesta, concorda comigo?
- Ãã!
- Pois é, esse mundo está perdido, meu filho. Mas você já namorou, né? Não é gay não, né?
- Ãã! Nããããããã!

Cada vez que eu tentava responder minha boca doía ainda mais. E por mais que eu tentasse mostrar minha afonia, ela repetia a pergunta até que eu, sem outra opção, emitisse algum som nasalado. Tal tormento prolongou-se durante longos trinta e cinco minutos, ao fim dos quais eu já sabia que ela era viúva, tinha três filhos, um deles vivendo no Canadá, pai de uma belezinha chamada Antonia. Mas nem me importei muito quando percebi que minha dor havia finalmente cessado. Tudo havia valido a pena e eu estava agradecido a Doutora Elza.

Sentei-me então à sua frente, diante daquela bonita mesa de madeira.

- Obrigado por me atender nesse horário, Doutora Elza. Quanto lhe devo?
- Duzentos reais.
- Duzentos reais? Sei que atendimentos realizados aos finais de semana e à noite são mais caros, mas duzentos reais?
- Ãã!
- Poxa, Doutora Elza, dá pelo menos para dividir em duas vezes para mim?
- Ã .. nãã!

21 listas de dicas para aprimorar a leitura e a escrita (Blog Livros e Afins)



A importância de uma equipe equilibrada

Em seu livro Management Teams: why they succeed or fall, R. Meredith Belbin enfatiza que não basta ter, em uma equipe, os melhores profissionais individualmente; eles têm que ter características complementares. Veja abaixo a classificação criada por Belbin e veja em qual delas você se encaixa:

Papéis direcionados para a AÇÃO - Os que Fazem/Agem – são orientados pela necessidade de agir e tomar decisões

Implementador (implementa idéias): Bem organizado, disciplinado, eficiente. Conservador e previsível - coloca idéias básicas em prática. Pode ser lento na tomada de decisões e inflexível.

Formatador (dá forma e direciona ações): Dinâmico gosta de ação e trabalha bem sob pressão. Corajoso e motivado por obstáculos. Pode ser insensível e provocativo.

Completador/Acabador (termina o trabalho): Conscientizado e ansioso, completa tarefas, faz seguimento e assegura-se de que os processos sejam seguidos. Procura e corrige erros. Pode se preocupar em demasia e tende a não confiar no trabalho alheio, relutando em delegar.

Papéis direcionados para o trabalho CEREBRAL - São os que pensam / resolvem problemas – são orientados pela razão e são analíticos

Semeador (semeia idéias): Resolve problemas difíceis, com ideias criativas, originais. Tende a se preocupar demasiado com suas ideias e esquece de se comunicar bem; pode ignorar detalhes.

Monitor/Avaliador (monitora e avalia o trabalho): Pensa cuidadosamente e tem visão clara dos processos. Honesto, discreto, estratégico e tem bom discernimento. Pode lhe faltar energia ou habilidade para inspirar os outros.

Especialista: Gosta do processo de aprendizagem e por isso reúne conhecimento e experiência, podendo resolver problemas em áreas chaves. Tendência a ser extremamente técnico.

Papéis direcionados para as PESSOAS - São os que desenvolvem e entendem as pessoas - orientados pela necessidade de socialização

Coordenador: Confidente, maduro, clarifica objetivos e promove o trabalho. Tem facilidade em delegar tarefas e ajudar os membros da equipe a manter o foco. Pode ser excessivamente controlador, tendência a delegar mais que trabalhar e a manipular.

Trabalhador em Equipe: Diplomático, cooperativo e perceptivo. Se importa pelos membros da equipe; sabe ouvir e resolver os conflitos sociais. Pode ter problemas tomando decisões difíceis; evita conflitos ao invés de tentar solucioná-los, o que leva a conformidade.

Investigador de Recursos: Extrovertido, entusiástico e comunicativo. Explora novas ideias e possibilidades, considerando o potencial humano – bom em networking. Pode ser excessivamente otimista e perder energia depois de passado o entusiasmo inicial.

Fonte: Baseado nos nove Team Roles de Meredith Belbin (1993)

sexta-feira, agosto 20, 2010

[Conto] Mata ela, filhinho!

Depois que passou a viver naquela casa sua vida mudou drasticamente. Para melhor, para muito melhor. Ela havia passado grande parte de sua vida zanzando por lugares fedegosos, escuros e perigosos. A tranquilidade que aquele local lhe trazia era reconfortante. Até mesmo o desdém quase total das pessoas que ali moravam não lhe incomodava. Ficaria mais feliz se tivesse um pouco mais de atenção, de carinho. Mas aí seria exigir demais, o simples fato de ter encontrado aquela porta aberta no momento que mais precisava já era motivo para gratulação eterna.

De todos que lá moravam, a pessoa que mais lhe gerava simpatia era aquele garotão lindo, brincalhão e sorridente. Era, afinal, o único que não a menosprezava, que às vezes brincava um pouco, conversava. Devia ter seus três anos, no máximo. Já a garota (uns doze anos) e o casal de adultos mal notavam sua presença. Melhor assim.

Seu cotidiano era, não raramente, enfadonho e melancólico. Tinha seu cantinho onde podia descansar com relativa tranquilidade. Acordava cedo para aproveitar o período em que todos ainda dormiam. Andava pela casa toda, menos nos quartos. Nesses momentos sentia-se mais livre, como se fosse realmente um membro daquela família. Ficava mais tempo na cozinha, onde deliciava-se com doces. Como adorava doces! Café também lhe agradava. Bolos então, que delícia! Com o sol oferecendo seus primeiros raios luminosos, ela já não tinha tanta liberdade.

O homem era o primeiro a acordar. Fazia barulhos estranhos no banheiro, sem se preocupar se incomodava os outros ou não. Soava o nariz, tossia, acionava a descarga do vaso sanitário várias vezes. Ia até a cozinha, bebia um copo de água e começava a fazer o café. Como de costume, nem notava sua presença. Terminado o café trancava-se novamente no banheiro para tomar banho. Era mais uma oportunidade para ela deliciar-se com um cafezinho fresco, feito na hora. Antes mesmo do homem terminar o banho, sua mulher também acordava, ia direto para a cozinha, onde xingava baixinho o marido por ter deixado as coisas do café todas sujas e fora do lugar. A garotona também não tardava a deixar sua cama, pois estudava de manhã. Como ela ficava linda com aquela sainha plissada do uniforme. Já o menino acordava cada dia em um horário diferente, tirando proveito da idade onde as responsabilidades não vão além de um mero pedido de benção antes de dormir.

Durante a maior parte do dia ficavam na casa apenas ela, a mulher e o garoto. O pai saía cedo e voltava tarde. A garota voltava na hora do almoço, comia alguma coisa e se trancava no quarto. Dessa forma, sua companhia resumia-se à encontros breves e fortuitos com o molequinho com cara de levado. Tinha que tomar muito cuidado, os movimentos desajeitados dele eram sem dúvida um risco para um ser tão frágil e desconjuntadiço como ela. Mesmo assim, gostava quando ele ficava perto, mexendo aqueles dedinhos gordos.

Tudo ia muito bem até aquela fatídica terça-feira. As últimas palavras que ela ouviu foram: “Mamãe, tem uma formiga aqui”. “Mata ela filhinho!”.

quarta-feira, agosto 18, 2010

[Livro] A Metamorfose, de Franz Kafka

Adicionar legenda
Definitivamente "A Metamorfose" não é um livro só para ser lido. Ele dever ser também pensado, analisado, refletido. A história, por si só, não é suficiente para justificar a fama da obra e de seu autor, mostrando-se relativamente simples e bem curta.

Mas quando o leitor mais atento e interessado transcende a simples leitura, transpondo a situação vivida pelo personagem principal à vida real, aí sim tem-se uma real e justa impressão sobre a qualidade do texto de Kafka. De forma bastante atemporal, "A Metaformose" nos faz refletir sobre a situação onde uma pessoa respeitada e amada por todos perde essa importância à medida que não se mostra mais útil.

Esta obra de Kafka, escrita no início do século passado mostra-se um exemplo clássico do que hoje chamamos de literatura fantástica, estilo que vem tendo grande sucesso, mostrando-se como leitura obrigatória para esse público. Ainda não está convencido de ler A Metamorfose? Então, lá vai mais um motivo: tem apenas 96 páginas, de leitura extremamente fácil.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Meu primeiro conto publicado

Como leitor inveterado e postulante à escritor amador, tenho o costume de acompanhar blogs sobre literatura, novos escritores, etc. Em um desses acessos, no blog Na Ponta dos Lápis encontrei um post sobre a organização de uma antologia de contos organizada pelo escritor e editor Leonardo Schabb em parceria com a Editora Multifoco.

Seguem abaixo mais informações sobre a antologia, retirada do blog acima citado:

(...) O nome da coletânea será Alétheia - Ficção Especulativa. (...) Alétheia é a palavra do grego que indica verdade. Mas a verdade da filosofia, com todas as complexidades que isso traz. Acho um nome interessante, porque esta é a busca que este livro de contos procurará realizar. Não, claro, necessariamente uma busca pela verdade de fato, mas pela reflexão; a idéia é provocar o leitor através de histórias que não precisem ficar presas ao mundo real e convencional. Por isso a opção pela ficção especulativa. Como disse antes, o objetivo desta antologia não é só reunir um monte de contos sobre um mesmo gênero, mas produzir realmente um livro de qualidade, algo que as pessoas gostarão de ler e de indicar.
Os textos a serem recebidos devem gerar uma investigação, de alguma maneira, das características humanas, filosóficas ou de nossa sociedade por intermédio de suas histórias fantásticas. As histórias alternativas (aquelas que em geral surgem da expressão "E se tal coisa acontecesse", partindo para algo fantástico ou fora da realidade) provavelmente são as que se encaixarão melhor no tema, mas outros tipos de contos fantásticos também serão bem-vindos.


Dediquei-me então à escrever um conto com essas características. Pensei, escrevi, reescrevi, revisei e finalmente enviei o conto entitulado "O Chifre". Para minha surpresa e satisfação inenarrável, meu conto foi escolhido para fazer parte da Alétheia, conforme pode ser visto aqui.

Segue agora o trâmite burocrático e mais técnico da montagem do livro. De qualquer forma, em breve terei meu primeiro conto publicado. É o início da realização de um sonho que poderá culminar com um livro inteiro de minha autoria. Sonhar é preciso, e não paga imposto.

terça-feira, agosto 10, 2010

Ler como objetivo e 5 dicas para que isso não seja uma obrigação, por Alessandro Martins (Blog Livros e Afins)

Ler mais é uma das grandes preocupações das pessoas no ano que chega. Além do quesito saúde, as listas de cada um tem algo em comum em boa parte das vezes. Leitura.

Todos nós sabemos que ler deve ser um ato de prazer e ele é. Sempre que aceitamos a idéia da leitura como algo obrigatório, imediatamente lembramos daqueles professores que nos atiçaram a ler um divertidíssimo Machado de Assis na hora errada. Isto é, quando não acharíamos divertidíssimo, embora ele o seja e muito.

Ora, se ler é algo prazeroso, não precisa e não deve estar associado com obrigação. Eu já me peguei pensando desse jeito várias vezes. Nada de errado, mas encarar as coisas assim pode tornar você um tanto neurótico a ponto de fazer uma lista com os livros lidos, como se eles fossem as presas abatidas em um safari.

Ler e prazer estão associados. Então, se não lemos o suficiente ou tanto quanto gostaríamos, a resposta é simples. Por algum motivo, não atendemos aos chamados de nossos prazeres – não só o dos livros, mas como um todo -, chamados que, de outra forma, seriam naturalmente atendidos.

Solução? Eliminar tais motivos tanto quanto possível.

Para tanto, fiz uma pequena lista de dicas que podem vir a ajudar.

Separe um tempo durante o dia para ler

Ler leva tempo e isso não deve mudar tão cedo. Cada vez mais as pessoas buscam prazeres rápidos e ficar de cinco a oito horas com um livro na mão se torna inconcebível. Mas acredite, os prazeres demorados são aqueles que mais valem a pena.

Guarde um tempo fixo do dia para essa atividade, se organize, faça uma agenda. Não precisa ser de cinco a oito horas. Quem sabe dois tempos de quinze minutos por dia? Já está bom. Depois de um ano, eles farão toda a diferença. Lembre-se: vale a pena, afinal é o seu prazer.

Outro problema é que as pessoas não associam prazer à disciplina e reservar uns minutos para a leitura exige disciplina. Nunca esqueça de levar sua diversão mais a sério do que a qualquer outra coisa.

Leia apenas o que lhe der prazer

Um dos maiores escritores que conheço – por livro, naturalmente – é Jorge Luis Borges. Qual a sua maior ambição? Ser um bom leitor. E não é pouca ambição. Seu conselho? Leia o que lhe faz feliz. Se você começar a ler alguma coisa e aquilo não lhe arrebatar, sequer o atrair levemente, deixe de lado. Talvez não seja a hora de ler, talvez nunca seja. Não faz mal. Existe uma infinidade de livros bons que vão lhe fazer feliz. Se quiser ler um pouco mais sobre isso, sugiro este artigo (http://livroseafins.com/literatura-uma-forma-de-alegria/).

Prepare o terreno

Nem sempre podemos escolher ou preparar o local em que vamos ler, mas, se pudermos, ajuda muito. Quem sabe uma poltrona aconchegante, ou uma escrivaninha levemente inclinada para facilitar ou até mesmo a cama, embora muitos não a recomendem pois você pode associar a leitura ao sono ou a cama ao manter-se acordado e nenhuma das duas opções é boa. Prepare uma bebida. Pode ser um café, um chá, um suco. Algo gostoso. Verifique se a temperatura está de acordo. Se preciso, abra ou feche uma janela. Arranje uma manta quentinha ou ponha uma pantufa ridícula, mas de que você gosta. Busque silêncio.

A idéia é preparar o ambiente, como em um ritual, de maneira a você ficar predisposto, antes mesmo de começar, aos momentos de prazer que viverá. Não recomendo música, pois olhos e ouvidos iriam brigar por atenção.

Mas o ambiente também pode ser uma situação. Um dos meus maiores prazeres é ler em uma panificadora muito movimentada aqui perto de casa enquanto tomo um pingado em um copo americano grande e como um pão com manteiga. Adoro fazer isso. Talvez você eleja uma árvore ou queira ficar com os pés em um riacho enquanto lê. Vale tudo. É um pouco de auto-conhecimento. Só você pode dizer o que é melhor para você em qualquer aspecto da vida. Neste também.

Outra coisa importante: preparar o ambiente para devotar sua atenção a essa atividade é uma questão de respeito. Alguém, um contemporâneo seu ou uma pessoa de muito tempo atrás, achou importante investir o seu precioso e curto tempo na Terra para escrever as palavras que estão no livro e assim transmiti-las a um leitor. E esse leitor é você. Ei! Não olhe para o lado… estou falando com você. É uma honra ler seja lá o que for. Talvez alguém tenha morrido para essas palavras chegarem até você. Talvez muitas pessoas. Portanto, as linhas não podem passar sob dois olhos entediados.

Leia junto com alguém

Se ler é algo prazeroso, nada melhor que um prazer solitário deixar de ser solitário e passar a ser compartilhado com alguém. Quem já deu uma trepadinha que seja na vida sabe do que estou falando. Eu e Júlia, no momento, lemos um para o outro, alternadamente, o livro História Sem Fim, de Michael Ende. É ótimo poder acompanhar aos poucos o desenrolar da história na voz de quem se ama. E essa pessoa pode ser não só sua namorada ou sua mulher. Pode ser seu irmão, irmã, amigo ou amiga. Compartilhar um livro é compartilhar vida. E compartilhar vida, bem… conheço poucas definições tão boas para amor. Se isso não fizer a leitura deixar de ser uma obrigação, não sei o que fará.

Se alguém se perguntou – e tenho certeza de que alguém fez isso – respondo: sim, eu e Júlia também fazemos outras coisas. Não entrarei em detalhes.

Leia menos

Esta dica parece contrariar seu próprio objetivo, mas ela é genial. Consiste da seguinte sabedoria: nunca faça nada prazeroso em tal quantidade que essa atividade fique cansativa, desgastante ou mesmo dolorida. Se isso acontecer com freqüência, com o tempo essa atividade, ainda que ela seja a mais prazerosa, será associada a desgaste e cansaço. Sempre.

- Ah, isso não acontece com o sexo…

É? Pense nas prostitutas.

Então, saia da mesa com um pouquinho de fome, pare de ler no melhor momento daquele capítulo. Guarde pra depois.

Com o tempo, os limites vão se alargando e mesmo “lendo menos” você vai notar que passou a ler muito mais do que quando começou a adotar estas táticas.

E, mais importante, mantendo o prazer e valorizando cada vez mais o que você lê.

Estas são minhas dicas, mas tenho certeza de que você tem as suas. Portanto, não se acanhe e as deixe aí embaixo nos comentários.

Fonte: Blog Livros e Afins ( http://livroseafins.com/ )

sexta-feira, agosto 06, 2010

[Livro] Uma Breve História do Mundo, de Geoffrey Blainey

Nenhum livro fica na lista dos mais vendidos bastante tempo à toa. "Uma Breve História do Mundo" justifica essa presença, mostrando-se um livro que trata um tema "pesado" e culto (História) com linguagem mais simples e de fácil entendimento.

Por outro lado, aqueles que realmente gostam e têm uma maior familiaridade com o assunto acabam sentindo falta de um aprofundamento maior, de mais detalhes, de mais qualidade na descrição dos eventos históricos. Isso não é uma falha do livro e sim uma característica. O autor realmente cumpre o que promete: uma BREVE história do mundo.

Acredito que o público alvo do livro seja formado por pessoas que gostam de História mas não são aficcionados. Para estes últimos, a leitura de obras mais densas e completas sobre eventos históricos específicos será mais proveitosa e prazeirosa.

terça-feira, julho 20, 2010

Cultura forte, por Paulo Ricardo Mubarack

Veja que confusão editores de revistas de negócios, consultores e gurus conseguem armar para cima de você: na edição de maio-junho de 2010, a revista HSM Management (a melhor revista sobre gestão que conheço no mundo) dá um escorregão e apresenta um “novo conceito” através de um de seus editores, talvez na ânsia de mostrar algo realmente inovador para seus leitores. A capa e a principal reportagem discutem o sucesso ímpar da Brahma (AB InBev), analisando os princípios que levaram a antiga cervejaria brasileira a tornar-se a maior cervejaria da Terra. Em um parágrafo escrito pela revista, afirma-se que o sucesso da Brahma deve-se a uma cultura muito forte fundamentada em um conjunto claro de princípios e que, desta maneira, estamos diante de uma nova forma de estruturar empresas para a vitória, substituindo o “antigo” conceito de valores pelo “novo” conceito de princípios.

Confesso que fiquei decepcionado com a afirmação, tal é a admiração que tenho pela revista. Escrever que princípios vão substituir valores é de uma inutilidade atroz e confunde os gestores e empresários menos avisados. Em termos práticos, não há qualquer diferença entre estas duas palavras e profissionais que lutam todos os dias duramente para tocar suas empresas não são ajudados por quem cria esta confusão. Somente ignorância profunda em gestão ou alma de picareta podem alimentar esta discussão enfadonha e improdutiva. Cultura é o comportamento predominante em qualquer grupo social e toda empresa tem a sua. Este comportamento predominante chamado cultura é sintetizado em um conjunto de frases que expressam o que empresários esperam encontrar no comportamento de seus profissionais. Se chamamos a este conjunto de frases de valores, princípios ou por qualquer outra palavra, isto não tem a menor importância. O que não podemos é confundir nossas empresas afirmando que princípios substituem os valores ou outras bobagens do gênero.

A propósito e confusões à parte, é imprescindível que os proprietários e principais dirigentes de qualquer organização sintetizem sua cultura e a divulguem para todos seus empregados. Cultura forte é aquela que expele qualquer profissional que não esteja alinhado com ela. Muitos me perguntam para que serve uma empresa escrever seu conjunto de valores. Serve para, em primeiríssimo lugar, selecionar pessoas. Aquelas que não estejam alinhadas com estes valores não devem ingressar ou continuar na empresa. Serve também para nortear todas as decisões da companhia. Por exemplo, se o valor de uma empresa afirma que “segurança é inegociável”, um supervisor pode parar a produção mesmo que com perdas materiais se identificar risco de acidente.

Outro ponto: valores devem ser divulgados e constantemente relembrados em todas as ocasiões da rotina. Valores devem ser ensinados através de histórias. Se eu perguntar para uma empresa sobre seu principal valor e esta responder que é a ética e se não houver pelo menos três histórias CONTUNDENTES da vida real da companhia para contar onde a ética direcionou uma decisão muito importante, então ética não pode ser citada como um valor.

Somente empresas com cultura forte sobrevivem e prosperam. Assim como as civilizações. Roma teve um império que durou cerca de um milênio porque tinha cultura forte (força e honra). A Alemanha é um país admirado por todos porque tem cultura forte. Isto significa que nas decisões, nos investimentos e nos profissionais que seleciona e que promove, uma empresa de cultura forte tem critérios claros e inegociáveis. Em oposição, empresas de cultura fraca são colonizadas e dominadas pelas de cultura forte. No hino do meu Estado natal (RS) há um verso fabuloso:

“Mas não basta para ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo.”

E se sua empresa não tem cultura forte? Trate de desenvolvê-la com muita disciplina ou prepare-se para ser colonizado. As melhores empresas são aquelas onde a família proprietária ou os principais acionistas têm cultura forte e selecionam pessoas que adoram esta cultura. Desenvolvem RH atuante que prepara uma escola de gestores que são “clones” dos donos. Há promoção interna e os principais gerentes e TODOS os diretores são prata da casa. Empresas fracas procuram seus dirigentes na rua, criando uma TORRE DE BABEL e submetendo-se à colonização. No médio e longo prazo, serão vendidas ou quebrarão. Trazer vez que outra alguém de fora é compreensível, mas se o número de “estrangeiros” representar mais de 10 % do quadro de dirigentes de uma companhia, ela é fraca e vai desaparecer.

Paulo Ricardo Mubarack

quarta-feira, julho 07, 2010

[Livro] Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski


Alguns dizem que a inveja é a arma dos incompetentes. Outros, mais populares, diriam que a inveja é uma m#$%@ mesmo. Independente da opção escolhida tenho que confessar que esse pecado capital tomou conta de mim durante o contato que tive com Crime e Castigo. Eu adoraria ser capaz de começar com um papel em branco e finalizar com uma obra de mais de setecentas páginas cheias da mais pura e deliciosa literatura.

Ítalo Calvino escreveu que a única razão que se pode apresentar para ler os clássicos da literatura é que lê-los é melhor do que não lê-los. Obviamente que existem clássicos que podem agradar e outros que não, dependendo do gosto do leitor. Crime e Castigo representou praticamente minha primeira incursão por essa riqueza. E eu não poderia ter começado melhor.

A impressão que se tem ao ler a obra de Dostoiévski é que ele tinha muita coisa a dizer sobre comportamento humano e resolveu fazê-lo por meio de um livro. Temas como inveja, maldade, riqueza, pobreza, loucura e vaidade (entre outros) são discutidos e analisados de forma preciosa.

Crime e Castigo é de leitura agradável, não muito simples, exige concentração, principalmente nos diálogos. Não prende o leitor da primeira à última página, titubeia em alguns pontos, tornando-se até um pouco cansativo. Páginas à frente, entretanto, o leitor volta a sentir aquela gostosa sensação de estar aprendendo e ao mesmo tempo tendo uma leitura prazerosa. Indispensável àqueles que realmente amam a boa literatura.

Link: Crime e Castigo no Skoob

quarta-feira, junho 23, 2010

Dicionário Analógico da Língua Portuguesa

Na edição 2169 da revista Veja, na seção "Veja Recomenda", me deparei com a indição de um dicionário curioso: DICIONÁRIO ANALÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. O que seria um dicionário analógico? Foi a primeira pergunta que fiz. No próprio texto da Veja já comecei a obter informações importantes ( http://veja.abril.com.br/160610/veja-recomenda.shtml ):

DICIONÁRIO ANALÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (Lexikon; 800 páginas; 69,90 reais)

 Nos dicionários convencionais, consulta-se uma palavra em busca de sua definição. O dicionário analógico oferece o caminho inverso: o consulente parte de um conceito (ou de uma vaga ideia) para chegar às palavras. Os verbetes oferecem verdadeiras nuvens de palavras que vão puxando uma a outra: a partir de "conselho", por exemplo, chega-se aos triviais "parecer, assessoria, consulta" e também aos mais remotos "parênese" e "temperilha". O leitor precisa adquirir um certo traquejo para manejar o dicionário. Mas, uma vez acostumado, descobrirá um instrumento indispensável, especialmente na hora de redigir um texto. O dicionário analógico – ou Thesaurus – é de uso corrente nos países de língua inglesa, popularizado desde o século XIX pelo lexicógrafo Peter Mark Roget. No Brasil, ao contrário, o dicionário de Francisco Azevedo (1875-1942), o único em sua categoria, foi publicado postumamente em 1950 – e só agora ganha uma segunda edição atualizada. Espera-se que não desapareça mais

Pesquisando o assunto na internet, encontrei dois artigos excelentes sobre o assunto, publicado no Jornal Zero Hora, pelo colunista Claudio Moreno ( http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2091334.xml&template=3916.dwt&edition=10394§ion=1029 e http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2121621.xml&template=3898.dwt&edition=10480§ion=1029):
 
O dicionário analógico


Enquanto meus amigos trocavam reminiscências sobre o futebol gaúcho da nossa infância, eu atiçava, distraído, o fogo da churrasqueira, esperando que a lenha se transformasse em brasa bem viva. Embora eu goste deste esporte, sinto um tédio mortal sempre que a conversa descamba para o terreno da tática e vira uma acalorada discussão sobre o aproveitamento de jogadores e esquemas alternativos. No fundo, aprecio um bom jogo assim como aprecio um bom livro, mas não tenho paciência para ficar ouvindo teses sobre um ou sobre o outro.

Desta vez, no entanto, acabou sobrando para mim: o tema eram os fardamentos de nossos clubes, com suas cores designadas por termos tradicionais da heráldica, como o alvinegro, o auricerúleo, o rubro-negro, e alguém lembrou o Grêmio Bagé, cujas cores – o amarelo e o preto – eram descritas também por um desses compostos de sabor parnasiano que ninguém ali da roda conseguia recordar. Perguntaram se eu conhecia; confessei que nunca tinha ouvido falar nisso, mas que, desde que ficassem cuidando o fogo, eu iria olhar no dicionário e logo os ajudaria a encontrar a resposta. Levei uma vaia. Como é que eu iria catar no dicionário uma palavra que eu nunca tinha visto ou ouvido? Em que letra eu ia começar a pesquisa? Como ia descobrir, dentre as duas mil e poucas páginas do Houaiss, aquela em que a desejada palavra se escondia? Pois é muito simples – para quem conhece o caminho. Este é o meu assunto de hoje.

Como qualquer bípede falante, eu tenho dois tipos de vocabulário: o ativo, que é composto pelas palavras que efetivamente consigo mobilizar na hora de falar ou escrever, e o passivo, muito mais extenso, que reúne também aquelas palavras que sou capaz de reconhecer quando as vejo empregadas por alguém. A passagem do passivo para o ativo é um processo de amadurecimento que inicia quando encontro uma palavra desconhecida. Na primeira vez não lhe dou muita atenção, mas encontros sucessivos começam a torná-la familiar; com o tempo, eu passo a reconhecê-la sempre que a vejo e já a saúdo com desenvoltura: ela acaba de entrar no meu vocabulário passivo e, dependendo da freqüência com que nos virmos, um dia vou me lembrar dela na hora em que estiver compondo uma frase – e pronto! Ela terá se tornado ativa.

Ora, enquanto uma palavra não migrar do estoque passivo para o ativo, ela pode provocar a mesma situação aflitiva em que se encontravam os meus parceiros de churrasco: eles sabiam que existia um termo exato para o que desejavam expressar, mas não conseguiam recuperá-lo na memória – o que tornava inútil, portanto, um dicionário comum, organizado em ordem alfabética. Como recuperar a palavra que fugiu? O processo de busca é o mesmo que usamos para telefones. Imagine, caro leitor, que você sofre de má-digestão e um amigo mencionou um especialista de mão-cheia, anotando o telefone do consultório num papelzinho – o qual, como era de esperar, você perdeu logo em seguida. Como o catálogo telefônico é inútil, já que você não lembra o nome do médico, a solução é recorrer às páginas amarelas, em que os profissionais estão agrupados por afinidade. Você vai na seção “Médicos” e ali localiza, reunidos numa lista, os gastroenterologistas. Pronto! Basta examinar rapidamente os cinqüenta nomes ali relacionados, e você vai encontrar – e reconhecer – o nome que tinha perdido.

No caso das palavras, quem faz as vezes das páginas amarelas é o dicionário analógico (ou ideológico). Nele, os vocábulos não estão relacionados em ordem alfabética, mas sim agrupados de acordo com o seu significado, seguindo uma classificação sugerida por Peter Roget, um cientista inglês do século 19 que fez para a linguagem o que Lineu fez para a Botânica: dividiu a realidade em várias categorias hierarquizadas e por elas distribuiu as palavras por afinidade. Em cada seção vêm registrados todos os vocábulos referentes ao mesmo campo semântico, agrupados em classes gramaticais (substantivos, adjetivos, verbos, advérbios). Uma vez localizada a categoria que nos interessa, basta ler a lista – como nas páginas amarelas – e vamos reconhecer a palavra perseguida. Foi fácil solucionar o caso do fardamento do Grêmio Bagé: abri o dicionário analógico na grande categoria das cores e fui direto à seção do amarelo. Como eu não conhecia a palavra, comecei a ler em voz alta todos os itens da relação até que – bingo! – todos saltaram quando cheguei a jalde (que, como averigüei mais tarde, é o esquisito nome que a heráldica usa para amarelo). Era a resposta: o Grêmio Bagé era tratado na crônica desportiva como “o jalde-negro” (cruzes!). Não preciso dizer que meu dicionário imediatamente se tornou o objeto da curiosidade (e da inveja) dos meus amigos, que queriam saber mais sobre ele. O resto eu conto depois.

Na coluna anterior, mostrei como funciona um dicionário analógico, utilíssima ferramenta que tem uma estrutura semelhante à das páginas amarelas da lista telefônica e nos permite recuperar aquele vocábulo preciso que costumamos esquecer bem na hora em que precisamos dele. Conhecendo o gosto e o interesse que meus leitores têm pelas palavras, tinha certeza de que não estava pregando aos peixes – e, com efeito, não foram poucos os que escreveram para perguntar onde poderiam adquirir esta novidade.

Fico constrangido em dizer que esta “novidade” já era conhecida na Antiguidade, quando Júlio Pólux, um estudioso de Alexandria, organizou, por volta de 180 D.C, o seu Onomasticon, um dicionário de palavras e expressões agrupadas por assunto. Na Idade Média e no Renascimento houve várias imitações sem maior importância, até que, em 1852, Peter Mark Roget, médico britânico, lançou o seu Tesouro de Palavras e Frases Inglesas, classificadas e distribuídas de modo a facilitar a Expressão das Idéias e auxiliar a Composição Literária, conhecido até hoje, no mundo anglo-saxão, pela primeira palavra de seu extenso título (em Inglês, Thesaurus). No prefácio à sua obra, que se tornou o modelo dos dicionários analógicos modernos, o bom doutor descreve com grande acuidade a frustração que sentimos quando, apesar de todo nosso esforço, a palavra que queríamos não atende ao nosso apelo: “Como os espíritos da vasta profundeza, ela não vem quando chamamos, e somos obrigados a empregar palavra ou expressão que ou é genérica demais, ou limitada demais, ou exagerada, ou insuficiente, ou que não se adapta à ocasião e que não acerta no alvo que tínhamos em mente” – a mesma situação que Mark Twain, sempre irreverente, comparou à decepção de um apaixonado que, em vez de se encontrar com sua amada, tem de se contentar com a prima dela.

Quase um século atrás, em 1936, a nossa Editora Globo publicou o primeiro dicionário deste tipo em Português, o Dicionário Analógico; Tesouro de Vocábulos e Frases da Língua Portuguesa, do padre Carlos Spitzer, alemão que veio para o Brasil ainda menino; na década de 50 saiu uma segunda edição, com várias tiragens, mas a obra, claramente inspirada pelo dicionário de Roget (até no título), acabou vendida ao desbarato nos caixotes da Feira do Livro de Porto Alegre. Em 1946 saiu em Portugal o Dicionário Analógico de Artur Bivar, que eu consultava, quando podia, na Biblioteca Central da UFRGS, mas que agora, depois de 15 anos de persistência, finalmente localizei num sebo de Minas Gerais. Mais recente e mais fácil de encontrar – e também mais completo – é o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, do professor goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, editado na década de 70 pela Editora Coordenada, de Brasília, com um número desconhecido de tiragens posteriores. Todos os três estão esgotados e parece não haver editor interessado em reimprimi-los – o que, aliás, é muito compreensível, já que o público leitor não vai procurar algo que nem sequer sabe que existe. Os felizes proprietários de um analógico, no entanto, não o emprestam, não o trocam e não o vendem por nada.

Na semana passada, tive novamente de recorrer a eles a fim de recuperar um vocábulo que me tinha escapado. Numa brincadeira com um amigo, imaginei uma cerimônia em que ele leria solenemente um conhecido poema gauchesco, enquanto um pequeno coral cantaria em surdina o Hino Rio-Grandense sem pronunciar as palavras da letra, isto é, apenas entoando a melodia com os lábios cerrados. Embora não seja um especialista no canto lírico, como meu prezado Luiz Osvaldo Leite, eu sabia que existe um termo específico que descreve este tipo de execução – mas quem disse que eu conseguia lembrar? Não hesitei em baixar da estante os três analógicos, sabendo que palavra alguma resistiria a tamanha artilharia combinada – e não deu outra! Enfiado entre monodiar, cantarolar, trautear, cantar a capella, modular, vocalizar, gargantear, gorjear, cantarinhar e cantorejar, lá estava o que eu buscava: cantar a boca chiusa, que os dicionários usuais definem como “cantar com a boca fechada, transferindo a ressonância para a região nasal”. Feliz com mais essa pequena vitória sobre o esquecimento, repus carinhosamente na estante os meus três fiéis mosqueteiros. Sou obrigado a reconhecer que, para mim, essa sensação de finalmente atinar com a palavra há tempos perdida – um misto de orgulho e alívio – é um dos maiores prazeres que encontro no meu trato contínuo com o dicionário.

Professor, doutor em Letras, cmoreno@terra.com.br

CLÁUDIO MORENO

Agora, cá estou eu com meu exemplar do DICIONÁRIO ANALÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Confesso que ainda um pouco perdido. Creio que com o tempo fique mais fácil buscar o que se deseja. Acredito que a editora poderia ter utilizado capa dura, mas isso não desmerece a iniciativa. Tenho certeza que será uma ferramenta muito útil, ou como acabei de pesquisar, uma ferramenta muito necessária, proveitosa, instrumental, preciosa, inapreciável, frutuosa, prestável, fruticosa, frutífera, frutescente, frugífera, profícua, proficiente ...

quarta-feira, junho 16, 2010

A importância de um feedback correto

O termo feedback vem sendo usado já há algum tempo de forma incessante e, às vezes, de forma incoerente. Convencionou-se pensar que toda conversa realizada com algum membro da equipe seja feedback. Obviamente que qualquer tipo de contato entre um líder e seus liderados é válido e importante, mas para ser considerado feedback deve ser bem planejado, além de ter seus objetivos definidos de forma clara, visando resolver algum problema ou desenvolver a equipe.

A principal vantagem de um feedback bem dado é deixar cada membro da equipe ciente da forma com a qual seu trabalho está influenciando a empresa, o restante da equipe e outros profissionais. Com isso, o líder evita que os profissionais que trabalham com ele sejam surpreendidos com qualquer decisão que ele venha a tomar. A ideia não é utilizar o famoso "eu te avisei" mas sim posicionar cada profissional sobre como o seu trabalho está sendo visto e avaliado.

Uma preocupação que poucos líderes têm ao dar feedback é a de preparar-se, fazer um planejamento acerca dos objetivos a serem alcançados, a forma utilizada para expor as opiniões e como reagir aos possíveis contra-argumentos que possam aparecer. Indispensável também é adaptar o discurso ao tipo de pessoa. Naturalmente, a abordagem para falar com pessoas mais tímidas e caladas tem que ser diferente daquela utilizada com pessoas falantes e desinibidas. Tão importante quanto o planejamento, é o que podemos chamar de senso de oportunidade. O feedback dado no dia certo e na hora certa é muito mais eficiente. Se você está querendo alertar um membro de sua equipe sobre um comportamento inadequado, nada melhor que conversar com ele no dia em que isso acontecer. O mesmo serve para elogios. Por isso, é fundamental que o líder tenha um local onde possa anotar observações à respeito dos liderados. Essas anotações devem ser lidas e atualizadas constantemente, o que fará com que a oportunidade ideal apareça naturalmente.

Todo mundo já deve saber que elogios devem ser feitos na frente de todos e repreensões apenas de forma particular. Quanto aos elogios, tanto faz onde são feitos, mas é verdade que ninguém gosta de levar bronca em público. Um feedback negativo mal dado pode causar sérios danos na autoestima de qualquer um, principalmente daqueles mais sensíveis. Além disso, diminuem a motivação e aumentam os conflitos internos. De qualquer forma, mesmo concordando que as repreensões devem ser feitas em particular, é importante que de alguma forma os outros membros da equipe percebam que o líder não está deixando passar certas coisas como se fossem normais. Se um funcionário percebe que outro chega atrasado todo dia e não sofre nada por isso poderá achar-se no direito de fazer o mesmo.

Aquele que dá o feedback deve ater-se aos aspectos mais importantes, deve ser objetivo. É responsável também por sugerir o que deve ser mudado e como isso deve acontecer. Não é indicado falar só de coisas ruins, aproveite para destacar também as qualidades e pontos positivos. Deve fazer o envolvido entender quais benefícios as mudanças propostas trarão para ele próprio, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Deve mostrar empatia, estar desarmado de qualquer tipo de preconceito, deixar o liderado à vontade, sem interrupções desnecessárias. Se possível o feedback deve ser dado em um local onde não serão incomodados. O líder deve manter-se atento à conversa, olhando sempre para seu interlocutor, demonstrando credibilidade e importância à opinião alheia.

Para finalizar um feedback bem dado, o líder deve reforçar os pontos chaves da conversa e, juntamente com o envolvido, definir metas, cronogramas e desafios referentes ao que foi acordado e aceito. Deve enfatizar sua disponibilidade em ajudar e orientar. Posteriormente, deve ser feita também uma análise, checando se os objetivos foram alcançados, se algo ocorreu fora da normalidade e o porquê. Com isso, nos próximos encontros será possível de forma fácil e clara verificar os resultados obtidos e comemorar os retornos alcançados.

sexta-feira, junho 11, 2010

Empresas x Jogos do Brasil: algumas marcam gol contra

Toda Copa é a mesma história. A primeira coisa que o torcedor procura são as datas e horários dos jogos do Brasil para ver se poderá enforcar um pouco do trabalho para assisti-los. É um comportamento natural em um país que gosta tanto de futebol. O problema é que algumas empresas acabam entrando no "joguinho" e apenas para fazer graça e mostrar que "quem manda aqui sou eu" optam por dificultar as coisas.

Algumas forçam os funcionários a assistirem os jogos dentro da empresa e avisam: "Cinco minutos depois que o jogo terminar todos devem estar em seus postos de trabalho". Terminar de assistir a um jogo do Brasil em uma Copa do Mundo e não poder comentar, discutir e rever os gols é praticamente jogar aqueles pirulitos com chiclete fora justamente na hora que chegou no chiclete. Além disso, ninguém fica muito feliz assistindo ao jogo do lado do chefe, comendo pipoca e tomando suco de caixinha enquanto a família e os amigos estão em outro lugar, provavelmente com o barril de chopp aberto.

Outras empresam liberam os funcionários e exigem que retornem ao fim da partida. Obviamente que dependendo do horário do jogo é natural que eles retornem. Ninguém vai querer ficar em casa o resto do dia depois de uma partida que terminou às 09:30h da manhã. De qualquer forma, não acredito que deve haver radicalismos. Exigir que os funcionários voltem para trabalharem mais uma ou duas horinhas é demais. Seria uma ótima oportunidade para a empresa fazer uma média com a peãozada.

Por fim, faço uma pergunta: será mesmo que vai ter algum cliente interessado em alguma coisa antes, durante e depois de um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

quinta-feira, maio 13, 2010

[Conto] O Chifre

Casados há pouco mais de cinco anos, viviam em um apartamento de dois quartos de um bairro de classe média. Ele, trinta e seis anos recém completados, funcionário público desde os vinte, fazia o tipo intelectual. Ela, com vinte e cinco, parou de trabalhar assim que se casou e jamais se arrependeu por isso. O salário de auditor municipal era suficiente para uma vida confortável, mas sem direito a muitas regalias. Ele se julgava um homem de sorte por ter encontrado e se casado com uma mulher tão atraente. Ela, não raramente, exibia seus seios fartos em belos decotes, deixando-o orgulhoso. Apreciava também seu belo traseiro, não só ele, mas todos que a conheciam. Apesar de sentir-se bem sendo admirada e desejada, ela via a fidelidade como algo natural, que não lhe incomodava.

O ritmo de trabalho na repartição estava deixando-o cansado e estressado. Chegava tarde em casa, muitas vezes com pastas e mais pastas de papéis, motivo pelo qual avançava a madrugada trabalhando. Ela começou a reclamar de tal situação, mas entendia o esforço do marido. Como paciência tem limite, um dia brigaram feio. Ele acordou cedo e foi para o trabalho sem se despedir. No final do dia, resolveu dar uma esticada no boteco da esquina. Sentou-se e pediu uma dose de whisky, daqueles não muito caros, por favor. Bebeu uma, bebeu duas, três ... Adorava um scotch, mas ultimamente vinha exagerando na dose, ou melhor, nas doses. Chegou um homem e sentou-se ao seu lado. Percebeu que ele tinha uma aparência estranha. Nossa, o que era aquilo? O homem tinha dois chifres, bem em cima da testa. Eram pontudos e nada discretos. O curioso é que ninguém no bar havia reparado nessa peculiaridade, apenas ele. Sem nenhuma cerimônia, o homem começou a conversa explicando o motivo do chifre: estava trabalhando demais, sua mulher se cansou e arrumou outro. Achando tudo aquilo meio estranho, pagou sua conta e despedindo-se rapidamente, foi para casa.

Nunca havia visto um homem com chifre. Pelo menos não com chifre de verdade. No final do dia seguinte foi novamente ao bar, sentou-se na mesma mesa e começou a beber. Uma dose, duas doses, três doses ... Foi quando o mesmo homem sentou-se novamente ao seu lado e disse: "Está nascendo chifre em você também...". Ele levantou-se imediatamente, pagou a conta, entrou no carro. Bêbado, entrou tão rápido que bateu a cabeça. Doeu pacas. Passou a mão logo acima da testa. Olhou rapidamente no espelho retrovisor. O homem estava certo, lá estava o chifre. Ficou desesperado, transtornado. Chegando em casa, entrou correndo, não sem antes colocar um boné que carregava no porta-luvas do carro. Já no banheiro, ligou a luz, tirou o boné. Lá estava ele ... o chifre.

À partir daquele dia passou a ignorar a mulher. Não suportava a ideia da traição. Toda vez que ela lhe dirigia a palavra, recebia de volta murmúrios ininteligíveis. Não ficava mais sem boné ou chapéu, mesmo para dormir. Tirava apenas para tomar banho, mas deixou de lavar a cabeça. No trabalho virou motivo de chacota. Sempre desconfiado que alguém pudesse descobrir o seu segredo, deixou de participar das reuniões, e também do futebolzinho de quarta. Quando passava por qualquer porta, sempre se abaixava, apesar de seu risível metro e sessenta de altura. Voltou várias vezes ao boteco, como sempre bebendo uma, duas, três ou quatro doses de whisky, sempre reencontrando aquele homem misterioso.

Sem saber muito que fazer, a esposa resolveu interná-lo. Os médicos disseram ser algum surto, com remotas chances de reversão. Ele, obviamente, não gostou da ideia. Acabou aceitando, depois de emocionados apelos da mulher e dos amigos. Tinha tido tempo de avisar aquele homem sobre sua internação, que ficou até de visitá-lo, mas nunca apareceu. Sentiu falta do whisky, nos últimos meses ele vinha sendo seu melhor companheiro. Dia após dia o chifre ia sumindo, até que algumas semanas depois ele desapareceu por completo. Sentia-se bem melhor, estava animado, disposto, sem aquela ressaca costumeira dos últimos tempos. A esposa foi avisada para ir buscá-lo. Colocou um vestidinho acima do joelho, tecido bem fino, que destacava seu corpo escultural. Ficou na porta esperando. Ele veio, todo alegre e feliz por revê-la. Nem mesmo quando percebeu que os enfermeiros a olhavam com cobiça ele se alterou. Não acreditava mais que ela estivesse o traindo.

Alguns dias depois retornou ao trabalho, agora sem o chapéu. Parou de beber whisky, sentia-se muito melhor sem o álcool. Tudo voltara ao normal. Só uma coisa deixava-o inquieto. Queria reencontrar aquele homem para dizer que o chifre havia sumido. Falar que aquilo tudo devia ter sido coisa que ele mesmo colocou na cabeça. Passou várias vezes no mesmo bar, no mesmo horário. Pedia um suco de laranja com gelo e aguardava. Nunca voltou a ver aquele homem. Nunca mais voltou a ter chifre.

quarta-feira, abril 28, 2010

Eles aqui, você lá ...

Histórias sobre executivos ou profissionais super atarefados, que deixam a família de lado, preocupados apenas com o sucesso e o trabalho existem aos montes e já viraram uma espécie de clichê. Eu mesmo já escrevi um conto sobre o assunto. Gostaria, entretanto, de fazer um convite a todos. Um exercício de concentração e imaginação. Se você é casado, pense na sua esposa. Se não for, vale pensar na mamãe, na vovó ou na titia. Se você tiver filhos, ótimo, pense também neles. Se não os tiver, pense em alguma outra pessoa da qual você goste bastante.

Comece com sua vida atual, com o seu dia-a-dia. Quando acorda, faz o que? Toma café com alguém ou sozinho? Leva alguém no trabalho, na escola? Almoça com quem? Assiste ao Jornal Nacional e à novela com quem? Dorme com quem? Brinca com quem? Sonha com quem? Concentre-se nos detalhes, naquelas minúcias que acabam passando desapercebidas na correria diária. Lembre-se tanto do rosto amassado da sua mulher fazendo café de manhã quanto da carinha do seu filho querendo brincar de luta às 22:30h.

Imagine agora que você, em função de sua competência, recebeu uma interessante proposta profissional. A questão é que terá que se mudar para outra cidade, distante uns quatrocentos quilômetros de onde reside atualmente. Sua mulher te dá total apoio, mas sugere, com razão, que você vá sozinho, pelo menos durantes alguns meses, até que seja possível arrumar tudo para uma mudança definitiva. Você verá essas pessoas das quais gosta tanto apenas nos finais de semana. Não mais todo dia, de manhã, de tarde e à noite. Não tomará diariamente o café da sua mulher, não levará nem buscará seu filho na escola e nem terá que implicar com ele para escovar os dentes antes de dormir. Nada daquele futebolzinho de quarta com os amigos. Pense um pouco, tente fazer dessa história hipotética a sua história real, pelo menos por alguns segundos.

Sem medo de ser repetitivo, a verdade é que não sabemos dar valor às coisas do cotidiano, às coisas simples. Damos sempre mais importância em morarmos em uma casa maior, comprar um carro novo ou um celular de última geração. A vida é assim, infelizmente. Somos cobrados para sermos assim. Mas tente, pelo menos de vez em quando, colocar-se em uma outra posição, posição esta que lhe tiraria o que você realmente tem de mais importante em sua vida. Não estou dizendo que devemos sempre negar propostas profissinais desse tipo. Em alguns casos, o sofrimento à curto prazo compensa benefícios futuros. De qualquer forma, essa reflexão nos ajudará a não dar valor à coisas importantes somente quando as perdemos.

quarta-feira, abril 14, 2010

[Livro] Feitiço de Amor de Outros Contos, de Ludwig Tieck

Ludwig Tieck, escritor alemão do século XIX, foi um dos expoentes da primeira geração do movimento romântico alemão. Essa primeira edição brasileira do autor traz seis contos bem ao estilo fantasioso, com fortes traços de contos de fadas, cheios de elfos, personagens imaginários, luzes, seres fantásticos. No entanto, essas característica acabam servindo apenas de ferramenta e pano de fundo para narrar histórias deliciosamente escritas, focando em uma série de sentimentos humanos como raiva, perdão, amor e ódio, entre outros.

Menção especial deve ser dada às tradutoras Maria Aparecida Barbosa e Karin Volobuef, que conseguiram de forma mágica transpor toda essa essência na conversão do texto do Alemão para o Português.

Leitura bastante agradável, vocabulário riquíssimo e inspirador. Indico sem nenhuma sombra de dúvida.

Link do livro no Skoob

quinta-feira, março 04, 2010

Por que ler os clássicos, Ítalo Calvino

O escritor italiano Italo Calvino (1923-1985), em seu livro Por que ler os clássicos [São Paulo: Companhia das Letras, 1993, pp. 9-16], propõe algumas definições muito interessantes de clássico:

"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'.

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

11. O 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."

Por fim, acrescenta:

"[...] que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque 'servem' para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos."

Fonte: http://www.classicosabrilcolecoes.com.br/colecao.php

quarta-feira, março 03, 2010

[Livro] Jornal Nacional - Modo de Fazer, de William Bonner


Este é, definitivamente, um livro que merece ser lido. Não só lido, mas apreciado. O material utilizado na confecção do livro é de excelente qualidade, proporcionando um "contato" muito gostoso com as páginas. Com uma qualidade gráfica espetacular, mostra-se bem rico também em fotos.
Dividido em capítulos muito bem pensados e organizados, o livro permite ao leitor uma viagem aos bastidores do mais importante telejornal brasileiro. Bonner utiliza de exemplos muito claros para descrever situações pelas quais toda a equipe do JN passa no dia-a-dia. Ao contrário do que muitos pensam, existe um trabalho incansável, que envolve inúmeras pessoas praticamente o dia todo.

Importante também destacar a humildade do autor ao citar algumas situações em que seus próprios erros poderiam ter gerado situações constrangedoras. Com isso, enfatiza o papel da equipe e também descreve com propriedade a importância de uma hierarquia profissional.

Enfim, leitura indicadíssima a todos, tanto àqueles da área de jornalismo quanto aos que sempre tiveram o Jornal Nacional como sua ferramenta diária para ver o que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo.

segunda-feira, março 01, 2010

Natura: sabonetes em pencas, pra fatiar, em gomos e em lascas

Existem empresas que nasceram para serem admiradas. Uma delas é a Natura. Depois de passar por um período de incertezas, conseguiu retomar as rédeas de seu próprio destino, focando sempre em sua cultura e na inovação.

Apenas para citar um exemplo, enquanto os concorrentes contentavam-se em lançar produtos em outros formatos ou com outras fragrâncias, a Natura lançou a linha Ekos, baseada no conceito de sustentabilidade, usando matérias-prima fornecidas por pequenos grupos de pessoas que vivem na Amazônia. Com isso, passou a vender não somente seus produtos e sim uma "aura" de empresa verde, responsável, honesta, justa. Pode até ser que alguém não compre um sabonete da Natura pura e simplesmente em função dessa postura, mas isso vale no mínimo como critério de desempate na escolha do cliente.

Mostrando-se um nascedouro sem fim de novas ideias, a Natura está lançando novos produtos da linha Ekos. Alguns, em especial, me chamaram a atenção:

Sabonete em penca sortidos 
Sabonete para fatiar de cupuaçu 

Sabonete em gomos de cacau


Sabonete em lascas de murumuru

Enquanto os outros continuam pensando em novas fórmulas, novos cheiros, novas cores e novas embalagens, a Natura simplesmente "inventa" novos sabonetes. Não espera que uma demanda surja, ela a cria. Estabelece diferenciais. Nenhuma outra empresa terá para oferecer a seus clientes sabonetes em penca, pra fatiar, em gomos ou em lascas. Em função desse pioneirismo poderá, obviamente, cobrar mais caro por estes produtos. Agrega valor ao que já fabrica. É mais ou menos como vender café solúvel no lugar de café em grãos. O produto é o mesmo, mas a empresa agregou valor, cobrará mais caro por isso. A Natura, mais uma vez, sai na frente.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Entre contratados e demitidos, não salvaram-se todos ...

Há três anos, em uma empresa como qualquer outra, a semana iniciou-se de forma totalmente normal. Apenas aparência. O fantasma da instabilidade que vinha rondando os funcionários se materializou logo na segunda-feira. Sem muita explicação e sem margem para muitos questionamentos, seis colaboradores foram dispensados. Alguns com anos de casa, outros com menos de seis meses. Aqueles que ficaram não viram nenhuma injustiça naqueles desligamentos. O problema principal era a falta de transparência. Nenhum comunicado divulgado. Nenhuma explicação. Os critérios não eram claros, o que mantinha uma arraigada sensação de insegurança, criando um ambiente de dúvida e medo.

Rezam as cartilhas da boa administração que um turnover alto não é bom sinal. A constante troca de funcionários além de deixar a todos inseguros, contribui para uma baixa perfomance tanto daqueles que entram, pois demoram a produzir, quanto daqueles que precisam continuamente e repetidamente ensinar as tarefas aos mais novos. Apesar dessa obviedade e clareza, esta não era uma preocupação importante
naquela empresa. Contratavam e demitiam sem nenhuma parcimônia, algumas vezes com razão, outras nem tanto.

A cada funcionário novo, repetia-se o ritual de ensinar-lhe a usar corretamente os sistemas, explicava-lhe os processos do departamento e era apresentado a seus superiores, subordinados e colegas. Natural que para isso fosse necessário que um funcionário com mais tempo de casa se ausentasse de suas atividades normais. Seria tudo isso normal caso não acontecesse várias vezes, muitas delas no mesmo departamento, para a mesma função.

A raiz do problema era o processo de seleção. Anunciava-se a vaga, recebiam-se os currículos, que eram analisados e filtrados, finalizando com as tão famosas entrevistas. Nenhuma novidade. Os critérios, ou talvez a prioridade entre eles, é que não eram os mais corretos. Muitas vezes oferecia-se um salário baixo para um cargo de coordenação. Apareciam bons candidatos mas sem a vivência necessária. Eram contratados como apostas, pelo potencial. Inúmeras vezes apostas erradas, que resultam em mais uma demissão, mais um processo seletivo, mais um funcionário e mais um processo de adaptação. Todo o departamento sofria, toda a empresa sentia. Em outras situações candidatos no máximo razoáveis eram contratados como salvadores da pátria em função da baixa exigência salarial e também da urgência em recompor uma equipe. Na maioria dos casos eram desligados com menos de seis meses de trabalho.

Outro realidade chamava a atenção. Alguns funcionários com anos de casa que não estavam mais apresentando bom rendimento eram tolerados de forma exagerada. Mesmo com baixa produtividade, falta de senso de urgência e dificuldades em trabalhar em equipe se achavam merecedores de regalias e no direito de se sentirem superiores aos outros. Contaminavam os mais novos, o que invariavelmente causavam novas demissões. Além disso, em função da fraca e amadora política de retenção de talentos, não raro excelentes funcionários, exauridos com o ambiente de trabalho ruim, com a sobrecarga gerada pela incompetência de outros e com a falta de perspectivas acabam se transferindo para outras empresas.

Curioso para saber como anda esta empresa atualmente? Está em decadência? Faliu? Foi comprada pelo concorrente? Não. Nenhuma das alternativas. Continua funcionando bem, aliás, muito bem. Realizaram mudanças drásticas na gestão de pessoas? Não. Continuam trabalhando da mesma forma. Como explicar então que o sucesso seja possível mesmo com uma gestão totalmente em desacordo com as melhores práticas? Pergunta interessante, resposta difícil. O primeiro argumento é que esta empresa tem inúmeras outras qualidades, tanto em sua cultura e processos quanto nos funcionários que lá trabalham. Excelentes profissinais, em nível executivo, de gerência e operacional dão o melhor de si, conseguindo bons resultados. O mercado em que ela atua está em excelente fase, possibilitando excelentes margens de lucro. A concorrência possivelmente apresenta a maioria dos mesmos problemas. Nesse contexto, a empresa vai continuar bem. Até que surja alguém fazendo diferente ... e melhor.

Estou lendo ...