Atualmente não há mais espaço para chefes tiranos, que tratam seus funcionários hora com indiferença, hora com falta de educação e humanidade. Mas que eles existem, existem. E continuarão sempre a existir porque essas (más) características são inerentes a alguns seres humanos, sejam eles chefes ou não. São exacerbadas e trazidas à tona quando tais indivíduos assumem posições de coordenação ou gerência.
Tenho convicção que o principal papel de um líder é conciliar os objetivos da empresa com os de seus subordinados. Não deve assumir o papel de defensor dos fracos e oprimidos mas também deve ser capaz de analisar até que ponto uma solicitação atendida pode indiretamente ser também a melhor opção para a empresa. Se um funcionário pede aumento, o líder reconhece seu merecimento e acha importante atendê-lo para evitar perdê-lo, nada mais coerente do que lutar para que seja atendido. Por outro lado, um funcionário que vem faltando e atrasando rotineiramente, mesmo que tenha seus motivos para isso, deve ser avisado que tal situação prejudica a empresa e também o ambiente de trabalho dentro da equipe.
Partindo do pressuposto que o chefe não deve ser um troglodita, surge a questão: até que ponto ele deve ser bonzinho? Em que situações deve assumir uma postura mais rigorosa e instransigente, dando maior ênfase aos objetivos da instituição? É uma questão muito delicada porque envolve a cultura da empresa e também a personalidade do líder. Inicialmente devemos considerar que é complicado um líder trabalhar e ser feliz em uma empresa em que os valores e ideais não sejam os mesmos que os seus. Claro que não há nunca 100% de coincidência entre os dois lados, mas caso as diferenças sejam grandes, a relação que vai existir entre ambos é de instabilidade. Aos primeiros sinais de insucesso, independente dos motivos, o resultado será a saída ou a demissão.
Pensando então em uma empresa que dê pelo menos uma razoável importância ao ser humano e que o líder tenha as mesmas características, até que ponto a preocupação em agradar os funcionários pode ser benéfica? A primeira varíavel que deve ser considerada é o tamanho da equipe. Em grandes equipes torna-se inviável conversar e entender individualmente os problemas de cada um. Fica também muito mais complicado evitar a sensação de que alguns subordinados estão tendo vantagens. O risco é que, diante de tal situação, toda a equipe passe a exigir as mesmas "regalias" que porventura tenham sido cedidas a algum deles. Nesse cenário é indispensável que existam mais regras formais e que o líder adote uma postura de não permitir exceções, sendo tolerante e permissivo somente em situações de força maior como aquelas que envolvam doenças ou problemas pessoais graves.
A liderança sobre equipes menores permite abordagens mais individualizadas. É justamente aí que mora o perigo. A proximidade com cada membro da equipe tende a criar um ambiente de informalidade, criando brechas para uma "amizade" perigosa. Nada contra, obviamente, um líder ser amigo pessoal de seus subordinados. A "amizade" à qual me refiro é aquela onde pequenos deslizes são deixados de lado e baixos rendimentos não têm a reação que merecem. Nesse sentido, o líder deve ter uma vigilância constante sobre o seu próprio comportamento, sob pena de se transformar em um excelente chefe para os funcionários e um péssimo funcionário para empresa que paga seu salário.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
[Livro] Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
Depois de um início meio sonolento e sem motivação, "Se eu fechar os olhos agora" pega ritmo e prende a atenção. Escrita de forma muito simples e direta, usando e abusando de diálogos curtos, a história é original e interessante.
Edney Silvestre, repórter da Globo, demonstra muito talento ao descrever as angústias, as curiosidades e a coragem de dois meninos de 12 anos junto a um velho que mora no asilo da pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Narrando a busca dos personagens pelo esclarecimento de um crime misterioso, o autor mostra com muita propriedade os hábitos e a cultura do Brasil da década de 60.
A leitura é agradável, leve, fácil e rápida. O final é muito prazeroso, não exatamente pelo que foi escrito, mas pela forma com a qual foi escrito.
Edney Silvestre, repórter da Globo, demonstra muito talento ao descrever as angústias, as curiosidades e a coragem de dois meninos de 12 anos junto a um velho que mora no asilo da pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Narrando a busca dos personagens pelo esclarecimento de um crime misterioso, o autor mostra com muita propriedade os hábitos e a cultura do Brasil da década de 60.
A leitura é agradável, leve, fácil e rápida. O final é muito prazeroso, não exatamente pelo que foi escrito, mas pela forma com a qual foi escrito.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
[Livro] O Símbolo Perdido
Quando uma pessoa vai ao cinema assistir a um filme do 007 ou Missão Impossível já sabe (ou pelo menos deveria saber) que vai encontrar uma série de situações que desafiam a lógica e que só são possíveis em Hollywood. Não adianta sair do cinema reclamando que o filme tem muita mentira.
O mesmo acontece com os leitores de Dan Brown. Desde "Anjos e Demônios" e "O Código da Vinci", passando por "Fortaleza Digital" e "Ponto de Impacto", o autor usa e abusa de sua criatividade criando situações e acontecimentos inverossímeis, totalmente desconectados do mundo real. Isso não é um defeito, é apenas uma característica do autor, um estilo. Cabe a cada um gostar ou não.
"O Símbolo Perdido" é Dan Brown no melhor estilo Dan Brown. Houve um intervalo muito grande depois do lançamento de "O Código da Vinci" (sim, "Anjos e Demônios" foi escrito antes), tempo suficiente para o autor exercitar seu talento e fazer suas pesquisas, criando uma história cheia de detalhes, minúcias e pormenores. O tema central gira em torno de mistérios da Maçonaria, com o herói Robert Landon usando seus conhecimentos em simbologia para ajudar importantes maçons e a CIA a evitar mortes e revelações bombásticas.
Brown sabe como poucos prender o leitor ao livro. Capítulos curtos, sempre finalizados de forma a despertar a curiosidade. O leitor que gosta deste estilo vai se envolvendo e não encontra "brecha" para interromper a leitura.
O livro é bom, apesar de um certo surto exagerado de imaginação do autor. O fim é meio decepcionante, o tão propalado mistério sobre o qual a história toda se refere acaba se mostrando algo simples e trivial. De qualquer forma é garantia de bons momentos de diversão e leitura agradável.
O mesmo acontece com os leitores de Dan Brown. Desde "Anjos e Demônios" e "O Código da Vinci", passando por "Fortaleza Digital" e "Ponto de Impacto", o autor usa e abusa de sua criatividade criando situações e acontecimentos inverossímeis, totalmente desconectados do mundo real. Isso não é um defeito, é apenas uma característica do autor, um estilo. Cabe a cada um gostar ou não.
"O Símbolo Perdido" é Dan Brown no melhor estilo Dan Brown. Houve um intervalo muito grande depois do lançamento de "O Código da Vinci" (sim, "Anjos e Demônios" foi escrito antes), tempo suficiente para o autor exercitar seu talento e fazer suas pesquisas, criando uma história cheia de detalhes, minúcias e pormenores. O tema central gira em torno de mistérios da Maçonaria, com o herói Robert Landon usando seus conhecimentos em simbologia para ajudar importantes maçons e a CIA a evitar mortes e revelações bombásticas.
Brown sabe como poucos prender o leitor ao livro. Capítulos curtos, sempre finalizados de forma a despertar a curiosidade. O leitor que gosta deste estilo vai se envolvendo e não encontra "brecha" para interromper a leitura.
O livro é bom, apesar de um certo surto exagerado de imaginação do autor. O fim é meio decepcionante, o tão propalado mistério sobre o qual a história toda se refere acaba se mostrando algo simples e trivial. De qualquer forma é garantia de bons momentos de diversão e leitura agradável.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
[Livro] O Andar do Bêbado
Qual a probabilidade de você gostar de um livro há meses na lista dos mais vendidos e sobre um assunto que lhe interessa bastante ? Em "O Andar do Bêbado", probabilidades, estatísticas e principalmente o papel do acaso na vida das pessoas são os principais temas. Respondendo a questão acima, as chances são muito grandes de que você goste muito, mas da mesma forma que os estatísticos e matemáticos erram em suas previsões, eu falhei ao ter certeza que iria me encantar com o livro de Mlodinow.
A verdade é que o livro não é ruim, pelo contrário, é bem escrito, muito bem fundamentado, com inúmeras referências bibliográficas. O principal problema é que ele não cumpre o que promete. O objetivo de trazer um assunto tão complexo aos leitores leigos é alcançado em apenas alguns capítulos do livro (capítulos 1, 2 e 10), sendo que nos outros o autor presume (talvez não intencionalmente) que o leitor tenha alguns conhecimentos matemáticos médios para conseguir entender a mensagem que tenta passar. Mesmos nos capítulos escritos em linguajar mais acessível alguns exemplos e assuntos se repetem, tornando a leitura meio maçante.
De qualquer forma, é louvável que autores escrevam sobre assuntos ditos "acadêmicos" visando o público em geral. Isso contribui para a melhoria do nível cultural geral. O fato de "O Andar do Bêbado" estar há muito tempo entre os mais vendidos também mostra um amadurecimento no público leitor brasileiro, o que é uma excelente notícia.
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O Andar do Bêbado Leonard Mlodinow
quarta-feira, dezembro 30, 2009
Ano novo, a mesma vida
Nesta época do ano a maioria das pessoas dá uma paradinha para repensar a vida, seus objetivos e anseios, o realizado e o a realizar. Eu, particularmente, nunca gostei muito de dar um significado tão importante à virada do ano. Para mim, o dia primeiro de janeiro é apenas um dia após o dia trinta e um de dezembro. Mas respeito aqueles que usam dessa data bastante simbólica para buscar algum tipo de mudança benéfica para suas vidas. Admiro muito um pensamento do poeta Carlos Drummond de Andrade:
É necessário, entretanto, que busquemos certa objetividade em nossas carreiras, em detrimento da ideia de que basta pensar positivo para as coisas acontecem. Fazer pedidos de sucesso para 2010 é louvável e não custa nada, mas não é o suficiente. Se você está feliz no seu trabalho, ótimo, parabéns, sorte a sua. Peça para que continue assim no próximo ano, no outro e no outro. Mas se você está infeliz, desanimado e desmotivado, comece a se mexer.
Aquele colega de trabalho chato e ignorante, que te encheu o saco o ano inteiro te mandou belas mensagens de Natal e Ano Novo ? A hipocrisia rola solta nesta época. É natural que o ambiente de trabalho melhore um pouco, todo mundo trabalhando mais relaxado, pensando no peru do Natal e na champagne do Reveillon. O que não podemos nos esquecer é que em poucos dias tudo vai voltar ao normal. Assim, se você não está feliz, com certeza assim continuará até que você arrume outro lugar mais interessante para trabalhar ou então que a empresa encontre alguém mais interessante que você para o seu lugar (provavelmente ganhando menos). Seu chefe continuará lhe pedindo coisas inúteis e chatas, seus subordinados continuarão não rendendo o que você gostaria que rendessem e seus pedidos de aumento continuarão sendo negados.
Por estes e outros motivos, não comece o novo ano achando que as coisas vão se ajeitar, que de uma hora para a outra sua empresa vai mudar o jeito de pensar, que finalmente reconhecerão e darão o devido valor ao seu talento. Se você não fizer alguma coisa, desculpe a sinceridade: aposto minhas lentilhas que vai ficar é muito pior.
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustăo. Doze meses dăo para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovaçăo e tudo começa outra vez,com outro número e outra vontade de acreditar, que daqui para diante vai ser diferente."
É necessário, entretanto, que busquemos certa objetividade em nossas carreiras, em detrimento da ideia de que basta pensar positivo para as coisas acontecem. Fazer pedidos de sucesso para 2010 é louvável e não custa nada, mas não é o suficiente. Se você está feliz no seu trabalho, ótimo, parabéns, sorte a sua. Peça para que continue assim no próximo ano, no outro e no outro. Mas se você está infeliz, desanimado e desmotivado, comece a se mexer.
Aquele colega de trabalho chato e ignorante, que te encheu o saco o ano inteiro te mandou belas mensagens de Natal e Ano Novo ? A hipocrisia rola solta nesta época. É natural que o ambiente de trabalho melhore um pouco, todo mundo trabalhando mais relaxado, pensando no peru do Natal e na champagne do Reveillon. O que não podemos nos esquecer é que em poucos dias tudo vai voltar ao normal. Assim, se você não está feliz, com certeza assim continuará até que você arrume outro lugar mais interessante para trabalhar ou então que a empresa encontre alguém mais interessante que você para o seu lugar (provavelmente ganhando menos). Seu chefe continuará lhe pedindo coisas inúteis e chatas, seus subordinados continuarão não rendendo o que você gostaria que rendessem e seus pedidos de aumento continuarão sendo negados.
Por estes e outros motivos, não comece o novo ano achando que as coisas vão se ajeitar, que de uma hora para a outra sua empresa vai mudar o jeito de pensar, que finalmente reconhecerão e darão o devido valor ao seu talento. Se você não fizer alguma coisa, desculpe a sinceridade: aposto minhas lentilhas que vai ficar é muito pior.
terça-feira, novembro 10, 2009
[Livro] O Líder Criador de Líderes
Já li outras obras de Ram Charan, por este motivo tinha a convicção de que seu foco é sempre em empresas de grande porte. Mas, pelo título do livro O Líder Criador de Líderes (Ram Charan, Campus; 272 páginas; R$ 52,00), minha ideia inicial é que seu conteúdo poderia me agregar muito como gerente de um departamento de uma empresa de médio porte.
Eu estava certo e errado ao mesmo tempo. Se por um lado não há como não absorver belos ensinamentos de um livro como esse, por outro a realidade descrita e desenvolvida ao longo do texto mostram-se quase sempre distante e irreal. Os exemplos, situações, dicas e ensinamentos são excessivamente relacionados com megaempresas, principalmente aquelas que possuem Conselho de Administração. Pode soar como pensamento pequeno, mas pouquíssimas pessoas trabalham em empresas assim, ainda mais no Brasil.
Isso sem dúvida diminui muito o público alvo do livro, infelizmente. Nada contra essa forma de abordagem, mas se o autor conseguisse trazer os mesmos ensinamentos a uma realidade de menor gigantismo o aproveitamento seria maior.
Eu estava certo e errado ao mesmo tempo. Se por um lado não há como não absorver belos ensinamentos de um livro como esse, por outro a realidade descrita e desenvolvida ao longo do texto mostram-se quase sempre distante e irreal. Os exemplos, situações, dicas e ensinamentos são excessivamente relacionados com megaempresas, principalmente aquelas que possuem Conselho de Administração. Pode soar como pensamento pequeno, mas pouquíssimas pessoas trabalham em empresas assim, ainda mais no Brasil.
Isso sem dúvida diminui muito o público alvo do livro, infelizmente. Nada contra essa forma de abordagem, mas se o autor conseguisse trazer os mesmos ensinamentos a uma realidade de menor gigantismo o aproveitamento seria maior.
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O Líder Criador de Líderes Ram Charan Liderança
quarta-feira, outubro 28, 2009
[Livro] A Sombra Que Me Seguia
Conheci este livro através de um email que recebi da agente da autora Adriane Salomão. Nele, era explicado que Adriane havia lançado sua primeiro obra literária, de contos, fazia uma breve sinopse e indicava alguns links para o blog da autora e também para o site da editora (Editora 7 Letras).
Achei a mensagem bastante simpática e como gosto muito de contos resolvi adquirir o livro através do próprio site da editora. Por tratar-se de uma editora relativamente desconhecida e de ser a primeira obra da autora imagino que não seja fácil encontra-la em livrarias mais tradicionais (espero estar enganado).
São 47 contos distribuídos em 142 páginas. A grande parte deles não passa de duas páginas: são contos curtos, diretos, rápidos. A temática é bastante abrangente, tratando principalmente do cotidiano de pessoas normais. Agradou-me muito o estilo de Adriane Salomão, os contos são fáceis de serem lidos e absorvidos, sem exageros de vocabulário, como é até comum nesse tipo de literatura. A leitura é agradabilíssima, muito leve, gostosa e prazerosa. É um excelente livro de cabeceira, para ser "degustado" aos poucos, dia após dia, antes de uma boa noite de sono.
Achei a mensagem bastante simpática e como gosto muito de contos resolvi adquirir o livro através do próprio site da editora. Por tratar-se de uma editora relativamente desconhecida e de ser a primeira obra da autora imagino que não seja fácil encontra-la em livrarias mais tradicionais (espero estar enganado).
São 47 contos distribuídos em 142 páginas. A grande parte deles não passa de duas páginas: são contos curtos, diretos, rápidos. A temática é bastante abrangente, tratando principalmente do cotidiano de pessoas normais. Agradou-me muito o estilo de Adriane Salomão, os contos são fáceis de serem lidos e absorvidos, sem exageros de vocabulário, como é até comum nesse tipo de literatura. A leitura é agradabilíssima, muito leve, gostosa e prazerosa. É um excelente livro de cabeceira, para ser "degustado" aos poucos, dia após dia, antes de uma boa noite de sono.
segunda-feira, outubro 26, 2009
Uma imagem vale mais do que mil ... vidas
Há alguns dias mais uma onda de violência assolou o Rio de Janeiro. Morreram bandidos, policiais e inocentes. Cenas de barbárie, cujo ápice foi representado pela derrubada de um helicóptero da PM, atingido por munição de grosso calibre em poder dos criminosos. Essas notícias correram o mundo. Muitos começaram a questionar a capacidade do Brasil e, em especial, do Rio de Janeiro de garantir a segurança de atletas e turistas durante as Olimpíadas de 2016. Isso sem nos esquecer que alguns dos principais jogos e a final da Copa do Mundo de Futebol de 2014 também serão na Cidade Maravilhosa.
Até aí nenhuma novidade: uma cidade violenta, criminosos vencendo a guerra com a polícia e o Brasil não sendo levado à sério no exterior. Em meio à tudo isso me chamou a atenção uma declaração do nosso presidente Lula, no alto do seu Olimpo, para não fugir muito do tema. Ele, no uso de sua nobélica sabedoria disse que os criminosos não sabem o mal que fazem à imagem do Brasil. É isso aí: policiais mortos, inocentes mortos, parte da cidade quase em estado de sítio e nosso querido presidente preocupado com a imagem do Brasil no exterior. Finalmente o PT descobriu algo que dá mais "Ibope" que o Bolsa Família
Até aí nenhuma novidade: uma cidade violenta, criminosos vencendo a guerra com a polícia e o Brasil não sendo levado à sério no exterior. Em meio à tudo isso me chamou a atenção uma declaração do nosso presidente Lula, no alto do seu Olimpo, para não fugir muito do tema. Ele, no uso de sua nobélica sabedoria disse que os criminosos não sabem o mal que fazem à imagem do Brasil. É isso aí: policiais mortos, inocentes mortos, parte da cidade quase em estado de sítio e nosso querido presidente preocupado com a imagem do Brasil no exterior. Finalmente o PT descobriu algo que dá mais "Ibope" que o Bolsa Família
terça-feira, setembro 29, 2009
[Conto] O profissional, o marido, o pai
Roberto era um homem de sucesso. Inteligente, criativo, dedicado, daqueles que literalmente vestia a camisa da empresa. Foi admitido em um programa de trainees, há 8 anos. Desde então vinha se destacando de forma diferenciada, alcançando o cargo de diretor de marketing em pouquíssimo tempo. Boa praça, de estilo pujante e hiperativo, dava-se bem com todos na empresa. Era querido pelos diretores e idolatrado pelos subalternos. Totalmente sociável, falava muito bem em público, o que lhe garantia visibilidade e prestígio por onde quer que passasse, desde o balcão do cafezinho até importantes apresentações para mais de 300 pessoas. Não havia dúvidas de que estava sendo preparado para ser o novo presidente. Casado há 5 anos e pai de um lindo menino de 3, Roberto não conseguia repetir em casa o sucesso obtido na empresa.
Logo que se casaram as reclamações tiveram início. "Você mal fica em casa, todo dia chega tarde e sai cedo!", "Não me dá atenção, só pensa na empresa!", "Acha seus clientes mais importantes do que eu!". Roberto sempre achou que ela estava errada, afinal de contas oferecia conforto, luxo, tudo o que uma mulher poderia querer e imaginar. Moravam em uma casa fantástica, dirigiam carros de luxos, viajavam sempre. O que mais uma mulher poderia querer de um marido? Ele precisava se dedicar à empresa, ao trabalho, pois era tudo isso que lhes proporcionavam essa vida. Se não se dedicasse, nada daquilo seria possível. Além disso, quando se conheceram, sua vida já tinha esse ritmo, ela já sabia que seria assim. Após a chegada do bebê a situação ficou ainda pior. Mesmo com o batalhão de enfermeiras e babás contratadas, ela sentia cada vez mais a falta de um apoio emocional, de ter com quem conversar. Roberto praticamente só via o seu filho aos finais de semana. Chegava quando ele já estava dormindo, saía antes de ter acordado. Na sua cabeça estava apenas trabalhando para garantir o melhor futuro para sua família. Começaram a discutir com mais frequência, ela dizendo que não aguentava mais aquela sensação de abandono. Ele retrucava que ela era mimada e que tinha de agradecer à Deus por ter um marido trabalhador e que não deixava faltar nada em casa. No dia em que foi promovido, comemorou com os colegas até tarde. No dia da apresentação do teatrinho do seu filho na escola, ele estava há quilômetros de distância.
Os negócios começaram a piorar. A recente crise econômica estava afetando de forma grave o mercado em que a empresa atuava. O alto endividamento, fruto da política agressiva de aquisição de concorrentes, deixara a situação incontornável. Reuniões eram seguidas de outras reuniões, cada vez mais longas, mais tensas. Buscavam uma solução que não existia. Roberto cada vez mais ausente de casa. Em poucos meses surgiu uma proposta de compra de uma multinacional chinesa. Não havia outra saída. Proposta aceita, tentaram tranquilizar a todos de não haveria muitas mudanças nos cargos do alto escalão. Roberto, confiante como sempre, tinha certeza que poderia contribuir para essa nova fase da empresa. Sua competência era reconhecida por todos. Toda aquela situação dramática não estava nem um pouco relacionada com sua atuação direta, que como sempre, havia sido impecável. Os chineses assumiram. Tinham uma política agressiva de imposição de sua cultura empresarial. A tensão e a pressão nunca tinham atingido aquele nível. Roberto, mesmo sob protesto de sua mulher, aceitou uma transferência para outro estado. Preferiu passar os primeiros meses morando sozinho, assim teria mais tempo para se dedicar e se adaptar à nova situação. Visitava sua casa apenas nos finais de semana. Viajou à Pequim várias vezes, ficando até 15, 20 dias no exterior. Seu setor foi desmembrado, perdeu poder. Propuseram-lhe uma redução do bônus. Foi obrigado a aceitar. Mais alguns meses e Roberto foi demitido. Aquela decisão foi um choque brutal em sua vida. Nunca havia experimentado aquela sensação de abandono, de fracasso, de falta de importância. Sentiu-se totalmente desamparado. Na negociação de seu desligamento, recebeu um bom dinheiro e exigiram que ele se mantivesse fora do mercado por seis meses. Só conhecia ver uma coisa boa naquilo tudo: poderia finalmente passar mais tempo em casa, conversar com sua mulher, brincar com seu filho. Eles, com certeza, iriam ficar felizes.
Preferiu não ligar para casa contando a novidade. Queria ganhar tempo, tentar não passar à sua mulher aquela sensação de fragilidade que estava sentindo. Fez os acertos necessários com a empresa, pegou o voo e retornou para casa. Já no aeroporto sentia-se melhor, de certa forma havia tirado um peso das costas. Sua mulher não iria reclamar mais, seu filho finalmente teria um pai. Chegando em casa, ávido por abraçá-los, encontrou apenas um bilhete em cima da mesa:
"Aguardei vários dias por uma ligação sua. Tentei entrar em contato, mas sempre caía em sua caixa postal. Você não retornou, deveria estar muito ocupado. Conversei muito com meus pais ultimamente e resolveram me apoiar em uma decisão muito difícil, mas necessária. Concluí que nossa história e nosso amor chegaram ao fim. Não lhe culpo por tudo, mas me sentia infeliz e carente há muito tempo. Quando chegar me ligue para que possamos dar início às formalidades."
Ele nunca havia se sentido tão abandonado, fracassado e desamparado.
Logo que se casaram as reclamações tiveram início. "Você mal fica em casa, todo dia chega tarde e sai cedo!", "Não me dá atenção, só pensa na empresa!", "Acha seus clientes mais importantes do que eu!". Roberto sempre achou que ela estava errada, afinal de contas oferecia conforto, luxo, tudo o que uma mulher poderia querer e imaginar. Moravam em uma casa fantástica, dirigiam carros de luxos, viajavam sempre. O que mais uma mulher poderia querer de um marido? Ele precisava se dedicar à empresa, ao trabalho, pois era tudo isso que lhes proporcionavam essa vida. Se não se dedicasse, nada daquilo seria possível. Além disso, quando se conheceram, sua vida já tinha esse ritmo, ela já sabia que seria assim. Após a chegada do bebê a situação ficou ainda pior. Mesmo com o batalhão de enfermeiras e babás contratadas, ela sentia cada vez mais a falta de um apoio emocional, de ter com quem conversar. Roberto praticamente só via o seu filho aos finais de semana. Chegava quando ele já estava dormindo, saía antes de ter acordado. Na sua cabeça estava apenas trabalhando para garantir o melhor futuro para sua família. Começaram a discutir com mais frequência, ela dizendo que não aguentava mais aquela sensação de abandono. Ele retrucava que ela era mimada e que tinha de agradecer à Deus por ter um marido trabalhador e que não deixava faltar nada em casa. No dia em que foi promovido, comemorou com os colegas até tarde. No dia da apresentação do teatrinho do seu filho na escola, ele estava há quilômetros de distância.
Os negócios começaram a piorar. A recente crise econômica estava afetando de forma grave o mercado em que a empresa atuava. O alto endividamento, fruto da política agressiva de aquisição de concorrentes, deixara a situação incontornável. Reuniões eram seguidas de outras reuniões, cada vez mais longas, mais tensas. Buscavam uma solução que não existia. Roberto cada vez mais ausente de casa. Em poucos meses surgiu uma proposta de compra de uma multinacional chinesa. Não havia outra saída. Proposta aceita, tentaram tranquilizar a todos de não haveria muitas mudanças nos cargos do alto escalão. Roberto, confiante como sempre, tinha certeza que poderia contribuir para essa nova fase da empresa. Sua competência era reconhecida por todos. Toda aquela situação dramática não estava nem um pouco relacionada com sua atuação direta, que como sempre, havia sido impecável. Os chineses assumiram. Tinham uma política agressiva de imposição de sua cultura empresarial. A tensão e a pressão nunca tinham atingido aquele nível. Roberto, mesmo sob protesto de sua mulher, aceitou uma transferência para outro estado. Preferiu passar os primeiros meses morando sozinho, assim teria mais tempo para se dedicar e se adaptar à nova situação. Visitava sua casa apenas nos finais de semana. Viajou à Pequim várias vezes, ficando até 15, 20 dias no exterior. Seu setor foi desmembrado, perdeu poder. Propuseram-lhe uma redução do bônus. Foi obrigado a aceitar. Mais alguns meses e Roberto foi demitido. Aquela decisão foi um choque brutal em sua vida. Nunca havia experimentado aquela sensação de abandono, de fracasso, de falta de importância. Sentiu-se totalmente desamparado. Na negociação de seu desligamento, recebeu um bom dinheiro e exigiram que ele se mantivesse fora do mercado por seis meses. Só conhecia ver uma coisa boa naquilo tudo: poderia finalmente passar mais tempo em casa, conversar com sua mulher, brincar com seu filho. Eles, com certeza, iriam ficar felizes.
Preferiu não ligar para casa contando a novidade. Queria ganhar tempo, tentar não passar à sua mulher aquela sensação de fragilidade que estava sentindo. Fez os acertos necessários com a empresa, pegou o voo e retornou para casa. Já no aeroporto sentia-se melhor, de certa forma havia tirado um peso das costas. Sua mulher não iria reclamar mais, seu filho finalmente teria um pai. Chegando em casa, ávido por abraçá-los, encontrou apenas um bilhete em cima da mesa:
"Aguardei vários dias por uma ligação sua. Tentei entrar em contato, mas sempre caía em sua caixa postal. Você não retornou, deveria estar muito ocupado. Conversei muito com meus pais ultimamente e resolveram me apoiar em uma decisão muito difícil, mas necessária. Concluí que nossa história e nosso amor chegaram ao fim. Não lhe culpo por tudo, mas me sentia infeliz e carente há muito tempo. Quando chegar me ligue para que possamos dar início às formalidades."
Ele nunca havia se sentido tão abandonado, fracassado e desamparado.
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segunda-feira, setembro 28, 2009
Rodolfo será demitido?
Recebi um comentário bem interessante sobre o conto A empresa onde ninguém tirava férias. A leitora Fernanda Dearo escreveu o seguinte:
A questão levantada é totalmente pertinente. Realmente, dependendo do estilo e da cultura da empresa, Rodolfo corre riscos de ser demitido quando retornar das férias. Mas eu espero estar certo quando penso que empresas desse tipo são exceções. A situação descrita no conto tenta mostrar que ninguém era contra tirar férias. O que estava acontecendo é que a diretoria tinha receio de que a liberação de algum funcionário importante fosse muito danosa para a continuidade das operações.
O fato de um funcionário poder passar dias fora da empresa sem medo de que as coisas parem de funcionar não significa, de forma alguma, que ele seja dispensável. O trabalho de organização e delegação de tarefas com certeza não foram as únicas melhorias que ele deve ter trazido ao departamento e à empresa. Essa forma dele atuar é apenas um indício de profissional competente e organizado. A empresa até poderia seguir sem ele, mas estaria abrindo mão de vários outros benefícios e melhorias que seriam obtidos no futuro. Por esse motivo, creio que nenhuma empresa séria vá desligar um funcionário como Rodolfo apenas porque o departamento ficou bem alguns dias sem ele. Por fim, tenho certeza que Rodolfo já ganhou a confiança total de sua equipe. Se for demitido, haverá um clima de insatisfação geral, o que fatalmente acarretará em perda de mais funcionários e queda de produtividade, jogando na lata de lixo tudo de bom que foi feito.
(...) o conto do Rodolfo é muito bom! MAS fico pensando... Nesse tipo de empresa, se o chefe perceber que ele ensinou tudo e tudo funciona sem ele, quando voltar de férias, tá na rua! (...)
A questão levantada é totalmente pertinente. Realmente, dependendo do estilo e da cultura da empresa, Rodolfo corre riscos de ser demitido quando retornar das férias. Mas eu espero estar certo quando penso que empresas desse tipo são exceções. A situação descrita no conto tenta mostrar que ninguém era contra tirar férias. O que estava acontecendo é que a diretoria tinha receio de que a liberação de algum funcionário importante fosse muito danosa para a continuidade das operações.
O fato de um funcionário poder passar dias fora da empresa sem medo de que as coisas parem de funcionar não significa, de forma alguma, que ele seja dispensável. O trabalho de organização e delegação de tarefas com certeza não foram as únicas melhorias que ele deve ter trazido ao departamento e à empresa. Essa forma dele atuar é apenas um indício de profissional competente e organizado. A empresa até poderia seguir sem ele, mas estaria abrindo mão de vários outros benefícios e melhorias que seriam obtidos no futuro. Por esse motivo, creio que nenhuma empresa séria vá desligar um funcionário como Rodolfo apenas porque o departamento ficou bem alguns dias sem ele. Por fim, tenho certeza que Rodolfo já ganhou a confiança total de sua equipe. Se for demitido, haverá um clima de insatisfação geral, o que fatalmente acarretará em perda de mais funcionários e queda de produtividade, jogando na lata de lixo tudo de bom que foi feito.
Não subestime o poder das emoções
Trecho retirado da coluna "Agenda do Líder", de Jack e Suzy Welch, publicada na revista Exame, da Editora Abril:
"(...) Desde que começamos a viajar o mundo, em 2002, sempre pedimos às pessoas que respondam, erguendo a mão, à seguinte pergunta: "No ano passado, quantos de vocês foram avaliados de verdade, isto é, quantos aqui ficaram sabendo qual era, de fato, sua situação na empresa?" Geralmente, mesmo nos auditórios mais participativos, o percentual de gente que levanta a mão confirmando a avaliação não passa de 10%. Isso é inaceitável, é revoltante. De repente, você está no comando de um negócio de 1 bilhão de dólares, trabalha com recursos em diferentes lugares do mundo, suas exposições perante a alta administração são feitas em slides sofisticados de PowerPoint. Mas, se você não diz às pessoas onde elas estão acertando e onde estão errando, não pode de maneira alguma acreditar que está no comando do negócio. Na verdade, suas avaliações devem ser tão claras que, se você tiver que dispensar um funcionário, ele nem precisará perguntar por quê. A pessoa vai querer saber apenas quais serão as condições do "acordo" e a logística para uma transição suave. (...)"
Eu, como gestor de pessoas, aprendi essa lição há pouco tempo. Demitir uma pessoa é uma das tarefas mais difíceis para mim. Dar um feedback negativo e sincero também nunca foi fácil. Tenho a tendência a evitar conflitos ao máximo. Encarar um subordinado, muitas vezes ele sendo uma pessoa fantástica, e dizer que não está gostando do seu trabalho não é agradável. Mas é extremamente necessário que isso seja feito. Primeiro porque você mostra que não está desistindo dele. Além disso, mostra quais são as deficiências, sugere soluções, oferece ajuda, o que são atitudes muito louváveis. O interesse em que esse funcionário "funcione" também é do gestor, da empresa. E, por último, se após vários feedbacks negativos e sinceros a pessoa não conseguir melhorar, o gestor não sentirá nenhuma amargura ou peso na consciência em desligá-lo. E nem ele poderá reclamar que não foi avisado.
"(...) Desde que começamos a viajar o mundo, em 2002, sempre pedimos às pessoas que respondam, erguendo a mão, à seguinte pergunta: "No ano passado, quantos de vocês foram avaliados de verdade, isto é, quantos aqui ficaram sabendo qual era, de fato, sua situação na empresa?" Geralmente, mesmo nos auditórios mais participativos, o percentual de gente que levanta a mão confirmando a avaliação não passa de 10%. Isso é inaceitável, é revoltante. De repente, você está no comando de um negócio de 1 bilhão de dólares, trabalha com recursos em diferentes lugares do mundo, suas exposições perante a alta administração são feitas em slides sofisticados de PowerPoint. Mas, se você não diz às pessoas onde elas estão acertando e onde estão errando, não pode de maneira alguma acreditar que está no comando do negócio. Na verdade, suas avaliações devem ser tão claras que, se você tiver que dispensar um funcionário, ele nem precisará perguntar por quê. A pessoa vai querer saber apenas quais serão as condições do "acordo" e a logística para uma transição suave. (...)"
Eu, como gestor de pessoas, aprendi essa lição há pouco tempo. Demitir uma pessoa é uma das tarefas mais difíceis para mim. Dar um feedback negativo e sincero também nunca foi fácil. Tenho a tendência a evitar conflitos ao máximo. Encarar um subordinado, muitas vezes ele sendo uma pessoa fantástica, e dizer que não está gostando do seu trabalho não é agradável. Mas é extremamente necessário que isso seja feito. Primeiro porque você mostra que não está desistindo dele. Além disso, mostra quais são as deficiências, sugere soluções, oferece ajuda, o que são atitudes muito louváveis. O interesse em que esse funcionário "funcione" também é do gestor, da empresa. E, por último, se após vários feedbacks negativos e sinceros a pessoa não conseguir melhorar, o gestor não sentirá nenhuma amargura ou peso na consciência em desligá-lo. E nem ele poderá reclamar que não foi avisado.
segunda-feira, setembro 21, 2009
Administrar a carestia
Alguns gestores reclamam que lhes falta tudo: pessoal, máquinas, equipamentos, treinamento, software etc. Na verdade, muitas destas queixas são feitas para esconder os verdadeiros motivos que os levam a não bater metas. Tentam ocultar determinadas incompetências pessoais e de suas equipes alegando que não possuem recursos. Esquecem de que foram justamente contratados para administrar com pouco. Se existissem recursos em abundância, qualquer um faria!Sei que muitas vezes os recursos são pobres. Mas também sei que se queixar apenas é uma atitude amadora e indigna de um profissional. Tudo o que acontece dentro da área de um gestor É PROBLEMA DELE! Ele deve mover céus e terras para resolver os problemas. Obviamente, muitas questões não dependerão dele apenas, mas é justamente nestas situações que se espera a atitude maiúscula de um gestor. Apenas reclamar dos fornecedores, do Banco Central, da ANVISA, do concorrente ou da sua própria equipe é conversa fiada. O gestor foi contratado para gerenciar processos e obter resultados excepcionais com poucos recursos. Repito: se houvesse recursos em abundância à disposição, bastaria um Zé qualquer para ser o gerente. O gestor não foi contratado para voar em “céu de brigadeiro”, ele foi contratado para gerenciar em céus turbulentos e tempestuosos.
Já conversei com muitos executivos que reclamaram: “Mubarack, você pega muito pesado”. Absoluto engano. Quem pega pesado é a vida, a concorrência, o caos que caracteriza o mundo empresarial. Entender que o trabalho de gerenciamento é muito duro e que exige muito sacrifício é básico para o sucesso.
Existe um problema crônico em relação a muitos gestores; não estudam, leem muito pouco e não utilizam ferramentas para resolver problemas. Análise de Pareto, Diagrama de Causa x Efeito, Estratificação de Dados, FMEA etc. passam longe dos hábitos diários desta gente. Com toda esta fragilidade intelectual, realmente fica muito difícil gerenciar sem amplos recursos à disposição.
Na maior parte dos casos, as diretorias, os acionistas e os proprietários são os principais responsáveis por esta lamentável situação. Eles deveriam desenvolver seus gestores nestes métodos e cobrar obstinadamente o seu uso, rejeitando qualquer análise que não seja feita com ferramentas, com dados e com o uso do método científico. Existem muitos gestores que já fizeram três MBAs e são completamente incapazes de fazer uma análise de Pareto ou construir um cronograma. Treinar com pertinácia os gestores, retreinar, fazer provas duras no final de cada curso, quem faz isto? A solução é simples, mas é preciso atitude por parte das direções.
Autor: Paulo Ricardo Mubarack
Enviado pelo amigo Marcelo "Jales", obrigado !
sexta-feira, setembro 18, 2009
[Conto] Entre jacarés e lagartixas
Aquela era mais uma empresa com traços inequívocos de administração familiar. Os donos haviam criado tudo há mais de 50 anos, partindo do zero, apenas com algumas economias conseguidas ao custo de muito suor. Mas tudo havia valido a pena, era uma empresa respeitada pelo mercado e até pelos concorrentes. Prezava a ética e a valorização dos funcionários. Depois da inauguração do prédio novo, há 3 anos, a satisfação de todos aumentou ainda mais. A grande maioria dos funcionários tinha no mínimo 5 anos de casa. Vários deles mais de 10, 15, 20 anos ... Essa experiência e lealdade eram, segundo os três irmãos que formavam o triunvirato administrativo, o segredo do sucesso. Mas os tempos eram outros, o mercado estava mudando. Clientes antigos passaram a comprar nos concorrentes em busca de alguns reais de desconto. A concorrência estava avançando. Multinacionais, de olho no crescente mercado brasileiro, surgiam como novos entrantes. O faturamento começou a cair e a luz amarela foi acesa.
Tinha chegado a hora de tomar decisões há anos adiadas. Os donos da empresa já mostravam claros sinais de cansaço, apesar de apresentarem ainda uma vitalidade espantosa. Não tinham tido instrução formal, mas de bobos não tinham nada. Perceberam que eram necessárias mudanças estruturais. Não havia espaço para vaidades. Entregaram a direção da empresa a um profissional altamente gabaritado, recrutado em uma das maiores e mais modernas empresas da região. Levaram-no a preço de ouro, foram convencidos de que não iriam se arrepender. Apesar da visível mostra de profissionalismo, esse desprendimento obviamente tinha limites. Deram liberdade ao novo presidente, mas o monitoravam de perto, participando de várias decisões. Isso ficou claro em um dos pedidos feitos ao novo gestor:
"Gostaríamos de manter os funcionários antigos. Confiamos muito neles e não temos motivos para demiti-los. Se achar necessário, estamos dispostos a gastar muito dinheiro com treinamentos, cursos de graduação e pós-graduação, MBAs, cursos técnicos ... Queremos fazer a empresa voltar a crescer, mas sempre junto com nossa equipe."
Aquele pedido não tinha nada de esdrúxulo ou sem sentido. O novo presidente concordou, tinha a certeza que, com a disponibilidade de grandes recursos, à médio prazo conseguiria profissionalizar as pessoas que ocupavam cargos de gerência e coordenação. Iniciou-se um processo constante de cursos in company. Palestrantes e professores das mais renomadas instituições de ensino e escola de negócios foram contratados. O clima interno nunca havia sido tão bom, os funcionários sentiam-se cada mais valorizados. Paralelamente a isso, o presidente deixou claro que era também necessária a injeção de DNA novo na empresa. A média de idade, apesar de não ser vista como empecilho, era alta. Precisavam mesclar profissionais jovens, altamente capacitados, de forma a criar uma sinergia positiva entre a experiência e a juventude. Novas ideias, gente motivada e disposta a mostrar serviço. Jovens altamente promissores, recrutados nas melhores universidades, foram contratados e alocados em todas as áreas da empresa. Para cada um deles foram designados mentores, selecionados entre aqueles que mais conheciam o negócio da empresa. Tudo estava indo conforme o planejado e conforme o combinado.
Meses se passaram. "Calma, ainda é cedo ...". "Precisamos dar tempo ao tempo ...". A verdade é que a empresa continuava perdendo espaço no mercado, os concorrentes avançando, as vendas caindo. "O que fizemos de errado? Gastamos uma fortuna com treinamentos, contratamos os melhores profissionais recém-formados, temos uma equipe comprometida e conhecedora de todas as suas tarefas. Tem que haver uma explicação!". Diante dos 3 donos, atrás daquela mesa imponente de madeira de lei, sentado naquela moderníssima cadeira importada, o presidente não tinha a explicação. Foi demitido. A situação era crítica, a desmotivação era geral. Os antigos funcionários tinham dado o melhor de si, os jovens promissores tinham seguido à risca os ensinamentos aprendidos nas seções de mentoring, tinham tentado colocar todo o seu aprendizado acadêmico à serviço da empresa. Mas não havia funcionado. Tinha que haver uma explicação. Um dos donos resolveu voltar à presidência, era necessário apagar o incêndio. Por indicação de um amigo, contratou uma consultoria renomadíssima, especializada em situações como aquela. Passaram-se semanas analisando tudo e a todos. Até que veio o veredito, proferido em tom imponente por aquele consultor, do alto de seus um metro e noventa de altura: "Quem nasceu para lagartixa nunca vai chegar a jacaré. Não há nada de errado com as lagartixas, mas se forem colocadas para nadar no fundo do rio, não conseguirão. Elas têm suas qualidades, não adianta pedir para um jacaré subir na parede, ele não conseguirá. A lagartixa consegue. Precisamos colocar as pessoas certas nos lugares certos".
Seguiram-se intermináveis segundos de silêncio total. "Como assim?", pensavam alguns, reticentes em serem os primeiros a demonstar que não tinham entendido nada. Mas a elucidação daquela metáfora veio em seguida: "Os funcionários antigos são excelentes, não há nada de errado com eles. Mas são lagartixas. Têm limitações, são importantes mas não serão eles que comandarão a empresa. Não são predadores. Temos jovens excepcionais, acima da média. Eles sim são os jacarés, mas estão frustrados, não lhe foram dada a chance de nadar, ficaram subordinados às lagartixas e se continuarem assim vão acabar definhando e se tornando uma delas. Precisamos fazer uma reformulação geral nas posições chave da empresa, e urgente".
O desafio que se seguiu foi fazer toda essa reestruturação sem melindres. Tanto a consultoria quanto os donos da empresa usaram de todo tipo de política disponível, conversas à dois, explicações, abriram o jogo totalmente, detalhando a situação da empresa, as medidas necessárias, envolveram a todos. Foi criado um plano de demissão voluntária. Ofereceram condições altamente atrativas para a aposentadoria daqueles que já estavam em condições para isso. Novas contratações foram necessárias. Muitos dos antigos funcionários voltaram para as tarefas em que eram bons, em que eram os melhores. Alguns jovens promissores assumiram posições de liderança. Os donos ainda mantiveram-se no comando durante alguns anos, até que um processo de sucessão fosse implementado e começasse a dar frutos. A empresa, repleta de jacarés e lagartixas, recuperou mercado, voltou a dar lucro.
Tinha chegado a hora de tomar decisões há anos adiadas. Os donos da empresa já mostravam claros sinais de cansaço, apesar de apresentarem ainda uma vitalidade espantosa. Não tinham tido instrução formal, mas de bobos não tinham nada. Perceberam que eram necessárias mudanças estruturais. Não havia espaço para vaidades. Entregaram a direção da empresa a um profissional altamente gabaritado, recrutado em uma das maiores e mais modernas empresas da região. Levaram-no a preço de ouro, foram convencidos de que não iriam se arrepender. Apesar da visível mostra de profissionalismo, esse desprendimento obviamente tinha limites. Deram liberdade ao novo presidente, mas o monitoravam de perto, participando de várias decisões. Isso ficou claro em um dos pedidos feitos ao novo gestor:
"Gostaríamos de manter os funcionários antigos. Confiamos muito neles e não temos motivos para demiti-los. Se achar necessário, estamos dispostos a gastar muito dinheiro com treinamentos, cursos de graduação e pós-graduação, MBAs, cursos técnicos ... Queremos fazer a empresa voltar a crescer, mas sempre junto com nossa equipe."
Aquele pedido não tinha nada de esdrúxulo ou sem sentido. O novo presidente concordou, tinha a certeza que, com a disponibilidade de grandes recursos, à médio prazo conseguiria profissionalizar as pessoas que ocupavam cargos de gerência e coordenação. Iniciou-se um processo constante de cursos in company. Palestrantes e professores das mais renomadas instituições de ensino e escola de negócios foram contratados. O clima interno nunca havia sido tão bom, os funcionários sentiam-se cada mais valorizados. Paralelamente a isso, o presidente deixou claro que era também necessária a injeção de DNA novo na empresa. A média de idade, apesar de não ser vista como empecilho, era alta. Precisavam mesclar profissionais jovens, altamente capacitados, de forma a criar uma sinergia positiva entre a experiência e a juventude. Novas ideias, gente motivada e disposta a mostrar serviço. Jovens altamente promissores, recrutados nas melhores universidades, foram contratados e alocados em todas as áreas da empresa. Para cada um deles foram designados mentores, selecionados entre aqueles que mais conheciam o negócio da empresa. Tudo estava indo conforme o planejado e conforme o combinado.
Meses se passaram. "Calma, ainda é cedo ...". "Precisamos dar tempo ao tempo ...". A verdade é que a empresa continuava perdendo espaço no mercado, os concorrentes avançando, as vendas caindo. "O que fizemos de errado? Gastamos uma fortuna com treinamentos, contratamos os melhores profissionais recém-formados, temos uma equipe comprometida e conhecedora de todas as suas tarefas. Tem que haver uma explicação!". Diante dos 3 donos, atrás daquela mesa imponente de madeira de lei, sentado naquela moderníssima cadeira importada, o presidente não tinha a explicação. Foi demitido. A situação era crítica, a desmotivação era geral. Os antigos funcionários tinham dado o melhor de si, os jovens promissores tinham seguido à risca os ensinamentos aprendidos nas seções de mentoring, tinham tentado colocar todo o seu aprendizado acadêmico à serviço da empresa. Mas não havia funcionado. Tinha que haver uma explicação. Um dos donos resolveu voltar à presidência, era necessário apagar o incêndio. Por indicação de um amigo, contratou uma consultoria renomadíssima, especializada em situações como aquela. Passaram-se semanas analisando tudo e a todos. Até que veio o veredito, proferido em tom imponente por aquele consultor, do alto de seus um metro e noventa de altura: "Quem nasceu para lagartixa nunca vai chegar a jacaré. Não há nada de errado com as lagartixas, mas se forem colocadas para nadar no fundo do rio, não conseguirão. Elas têm suas qualidades, não adianta pedir para um jacaré subir na parede, ele não conseguirá. A lagartixa consegue. Precisamos colocar as pessoas certas nos lugares certos".
Seguiram-se intermináveis segundos de silêncio total. "Como assim?", pensavam alguns, reticentes em serem os primeiros a demonstar que não tinham entendido nada. Mas a elucidação daquela metáfora veio em seguida: "Os funcionários antigos são excelentes, não há nada de errado com eles. Mas são lagartixas. Têm limitações, são importantes mas não serão eles que comandarão a empresa. Não são predadores. Temos jovens excepcionais, acima da média. Eles sim são os jacarés, mas estão frustrados, não lhe foram dada a chance de nadar, ficaram subordinados às lagartixas e se continuarem assim vão acabar definhando e se tornando uma delas. Precisamos fazer uma reformulação geral nas posições chave da empresa, e urgente".
O desafio que se seguiu foi fazer toda essa reestruturação sem melindres. Tanto a consultoria quanto os donos da empresa usaram de todo tipo de política disponível, conversas à dois, explicações, abriram o jogo totalmente, detalhando a situação da empresa, as medidas necessárias, envolveram a todos. Foi criado um plano de demissão voluntária. Ofereceram condições altamente atrativas para a aposentadoria daqueles que já estavam em condições para isso. Novas contratações foram necessárias. Muitos dos antigos funcionários voltaram para as tarefas em que eram bons, em que eram os melhores. Alguns jovens promissores assumiram posições de liderança. Os donos ainda mantiveram-se no comando durante alguns anos, até que um processo de sucessão fosse implementado e começasse a dar frutos. A empresa, repleta de jacarés e lagartixas, recuperou mercado, voltou a dar lucro.
sexta-feira, setembro 11, 2009
[Livro] O Mercador de Veneza, de William Shakespeare
Definitivamente é uma história mais para ser vista do que lida. A estrutura do texto no livro, dividida nas falas das personagens como scripts dificulta a fluência da leitura. A linguagem muito rebuscada (o livro foi escrito séculos atrás) também não colabora muito para uma experiência mais leve e agradável. De qualquer forma, o destaque vai para a facilidade que Shakespeare tinha em trabalhar com as palavras.
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O Mercador de Veneza William Shakespeare
terça-feira, setembro 01, 2009
[Conto] A empresa onde ninguém tirava férias
Aquela era uma empresa onde ninguém tirava férias. Ninguém sabia bem explicar os motivos reais, mas a verdade é que todo novo funcionário era prontamente avisado, depois de contratado, que dificilmente iria ter o seu merecido descanso anual. Não era uma posição oficial da empresa, que também não se preocupava em desmentir. Antigamente era até melhor, pagava-se hora extra, agora nem isso mais, vai tudo para o banco de horas. Muitos funcionários não se adaptavam e saíam antes de completar 12 meses. Alguns recém-contratados falavam de boca cheia "Onde já se viu isso? Lógico que vou tirar férias ...". Passado algum tempo caíam na realidade e já se acostumavam com a ideia. Por esse motivo, quando Rodolfo foi contratado e afirmou categoricamente que tiraria 30 dias de folga no ano seguinte ninguém deu importância.
Rodolfo era um contador experiente, tinha lá seus 45 anos de idade, casado, dois filhos. Nem alto nem baixo, cabeleira rala mas ainda não grisalha, chamava a atenção por seu aspecto calmo e bem-humorado. Havia sido contratado por indicação de um amigo, ciente da necessidade que a empresa tinha de uma pessoa com capacidade de liderança e com conhecimentos atualizados na área. Astrogildo, o antido chefe da Contabilidade havia se cansado depois de 20 anos de trabalho sem uma única semana de folga. Aquela figura bonachona com barrigão saliente e sempre com um cigarro à boca, sentada em sua poltrona tipo presidente de couro preto, sem dúvida deixaria saudades.
Rapidamente, o trabalho do novo funcionário mostrou resultados. Mudou os móveis de lugar, melhorou a luminosidade da sala, mandou instalar vasos de plantas e, ao contrário do antigo dono do cargo, instalou sua mesa junto aos demais funcionários, relegando à sala do gerente à um mero depósito de documentos fiscais. Organizou todas as tarefas, mudou as atribuições de cada membro de sua equipe de acordo com as características de cada um, delegou muita coisa, estabeleceu metas de produtividade e critérios de bonificação. O ambiente de trabalho no departamento mudou da água para o vinho, todos trabalhando felizes e motivados. A diretoria, reconhecendo o bom trabalho, deu mais autonomia para Rodolfo fazer novas contratações. Aumentou seu salário.
O tempo foi passando e próximo ao final do ano, Rodolfo começou a comentar com todos na empresa que já tinha alugado uma casa maravilhosa na praia para passar 20 dias em companhia da família e amigos. As reações iam de incredulidade à ironia: "Ninguém aqui tira férias, ele acha que vai tirar?", "Quem ele acha que é, mal entrou na empresa e já acha que pode tudo?", "Ele vai só ver quando falar isso pra diretoria !". Quanto mais Janeiro se aproximava, mais as fofocas aumentavam. Alheio a toda essa polêmica continuou seu trabalho junto com sua equipe, cada vez mais produtiva.
No dia em que Rodolfo havia dito que entraria de férias, uma belíssima segunda-feira de sol, todos chegaram mais cedo. Queriam esperá-lo no portão da empresa para começar a zoação. Esperaram, esperam e nada do Rodolfo. Um voluntário resolveu ir até o RH, como quem não quer nada, perguntar por Rodolfo. A resposta foi inesperada: "O Sr. Rodolfo está de férias, volta dentro de 20 dias". A notícia se espalhou como fogo no palheiro, ninguém mais trabalhava direito, a produção praticamente parou. Percebendo todo aquele tumulto e um monte de gente sem trabalhar, um dos diretores foi até o pátio, chamou a todos e pediu uma explicação:
"O que é que está acontecendo aqui hoje? Por que esse buxixo todo e esse monte de gente à toa?
Um corajoso resolveu responder:
"Alguns de nós estão aqui na empresa há anos e nunca tiramos férias. Agora, do nada, um funcionário com um ano de casa consegue tirar, isso é muito injusto !"
A resposta não poderia ser mais clara e direta:
"Nunca ninguém disse a vocês que não podiam tirar férias. Acontece que nenhum de vocês preparou alguém para os substituir. Se eu permitir que vocês se ausentem da empresa por vários dias, teremos problemas sérios para continuar as atividades normais. Já o Rodolfo trabalhou esse tempo todo montando sua equipe, delegando tarefas, de modo que mesmo que ele se ausente por 3 semanas, o pessoal que trabalha com ele conseguirá realizar o trabalho, sem nenhum transtorno".
À partir daquele dia houve uma mudança radical naquela empresa. A produtividade e a satisfação aumentaram. A mentalidade de todos também. Passaram a tirar férias, como sempre sonharam.
Rodolfo era um contador experiente, tinha lá seus 45 anos de idade, casado, dois filhos. Nem alto nem baixo, cabeleira rala mas ainda não grisalha, chamava a atenção por seu aspecto calmo e bem-humorado. Havia sido contratado por indicação de um amigo, ciente da necessidade que a empresa tinha de uma pessoa com capacidade de liderança e com conhecimentos atualizados na área. Astrogildo, o antido chefe da Contabilidade havia se cansado depois de 20 anos de trabalho sem uma única semana de folga. Aquela figura bonachona com barrigão saliente e sempre com um cigarro à boca, sentada em sua poltrona tipo presidente de couro preto, sem dúvida deixaria saudades.
Rapidamente, o trabalho do novo funcionário mostrou resultados. Mudou os móveis de lugar, melhorou a luminosidade da sala, mandou instalar vasos de plantas e, ao contrário do antigo dono do cargo, instalou sua mesa junto aos demais funcionários, relegando à sala do gerente à um mero depósito de documentos fiscais. Organizou todas as tarefas, mudou as atribuições de cada membro de sua equipe de acordo com as características de cada um, delegou muita coisa, estabeleceu metas de produtividade e critérios de bonificação. O ambiente de trabalho no departamento mudou da água para o vinho, todos trabalhando felizes e motivados. A diretoria, reconhecendo o bom trabalho, deu mais autonomia para Rodolfo fazer novas contratações. Aumentou seu salário.
O tempo foi passando e próximo ao final do ano, Rodolfo começou a comentar com todos na empresa que já tinha alugado uma casa maravilhosa na praia para passar 20 dias em companhia da família e amigos. As reações iam de incredulidade à ironia: "Ninguém aqui tira férias, ele acha que vai tirar?", "Quem ele acha que é, mal entrou na empresa e já acha que pode tudo?", "Ele vai só ver quando falar isso pra diretoria !". Quanto mais Janeiro se aproximava, mais as fofocas aumentavam. Alheio a toda essa polêmica continuou seu trabalho junto com sua equipe, cada vez mais produtiva.
No dia em que Rodolfo havia dito que entraria de férias, uma belíssima segunda-feira de sol, todos chegaram mais cedo. Queriam esperá-lo no portão da empresa para começar a zoação. Esperaram, esperam e nada do Rodolfo. Um voluntário resolveu ir até o RH, como quem não quer nada, perguntar por Rodolfo. A resposta foi inesperada: "O Sr. Rodolfo está de férias, volta dentro de 20 dias". A notícia se espalhou como fogo no palheiro, ninguém mais trabalhava direito, a produção praticamente parou. Percebendo todo aquele tumulto e um monte de gente sem trabalhar, um dos diretores foi até o pátio, chamou a todos e pediu uma explicação:
"O que é que está acontecendo aqui hoje? Por que esse buxixo todo e esse monte de gente à toa?
Um corajoso resolveu responder:
"Alguns de nós estão aqui na empresa há anos e nunca tiramos férias. Agora, do nada, um funcionário com um ano de casa consegue tirar, isso é muito injusto !"
A resposta não poderia ser mais clara e direta:
"Nunca ninguém disse a vocês que não podiam tirar férias. Acontece que nenhum de vocês preparou alguém para os substituir. Se eu permitir que vocês se ausentem da empresa por vários dias, teremos problemas sérios para continuar as atividades normais. Já o Rodolfo trabalhou esse tempo todo montando sua equipe, delegando tarefas, de modo que mesmo que ele se ausente por 3 semanas, o pessoal que trabalha com ele conseguirá realizar o trabalho, sem nenhum transtorno".
À partir daquele dia houve uma mudança radical naquela empresa. A produtividade e a satisfação aumentaram. A mentalidade de todos também. Passaram a tirar férias, como sempre sonharam.
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segunda-feira, agosto 31, 2009
Estante Virtual

Uma das justificativas usadas por várias pessoas para não ler muito é a de que livro custa muito caro. Apesar de não concordar e também de achar que isso não é motivo, acabei de encontrar a solução. Trata-se do site Estante Virtual, uma ideia extremamente criativa que consiste na intermediação de venda de livros usados entre usuário e sebos de todo o Brasil.
Basta entrar no site, procurar o livro que deseja e ver os inúmeros sebos que têm o produto em estoque. Em seguida, pode-se analisar diversos detalhes como preço, localização do sebo, opiniões de outros clientes, estado de conservação do livro, fotos, etc. Para fazer a compra, é necessário um cadastro bem rápido no site. Depois disso basta finalizar a compra, que pode ser paga (na maioria dos sebos) através de cartão de crédito, boleto, débito em conta, etc. Há também um recurso importantíssimo referente à compra segura. O dinheiro fica bloqueado até que o produto chegue até você. Se não gostar ou for enganado pode evitar o pagamento.
Há alguns dias, realizei minha primeira experiência de compra na Estante Virtual. Comprei o livro Espiões, de Michal Frayn, do sebo A Ventania, de São Paulo. O livro novo pode ser encontrado por R$ 44,00. Eu comprei por R$ 18,00 e, para minha agradável surpresa, recebi o livro em perfeitas condições de conservação, praticamente novo. Obviamente que nem sempre deve ser assim, mas analisando a reputação do sebo junto aos outros usuários, diminui-se em muito a chance de dar algo errado.
quinta-feira, agosto 20, 2009
Proibição de publicidade de remédios e da venda de outros produtos em farmácias
As mais recentes decisões tomadas pela Anvisa reavivam um assunto muito importante: até que ponto a interferência do governo em questões que não lhes dizem respeito diretamente ajuda ou atrapalha? Estou falando da proibição de vinculação de peças publicitárias referentes à remédios e da proibição das farmácias venderes produtos que não sejam medicamentos. A verdade é que os governos, principalmente aqui no Brasil, tendem a terceirizar responsabilidades e tomar atitudes totalmente esdrúxulas para resolver os problemas cuja solução são cobrados pela opinião pública.
Segundo a visão totalmente míope do governo federal, as proibições de propagandas e de venda de outros produtos visam inibir a automedicação. É importante destacar que a automedicação é realmente um problema muito sério e que deve ser combatido. Mas peraí? Já não era proibido vender remédio sem receita? Se já existia uma lei nesse sentido, bastaria fiscalizar e pronto. Não haveria influência negativa nenhuma de termos comerciais sobre medicamentos e muito menos a oferta de outros produtos nas farmácias. A questão é que, a exemplo de outras situações semelhantes, é muito mais fácil para nossas "queridas" autoridades repassar todo o ônus e toda a responsabilidade para as costas dos empresários e ainda ficar com pose de "zeladores do bem comum". Trabalhar que é bom mesmo, buscando melhorias na fiscalização da venda indevida de medicamentos, está fora de cogitação. Trabalhar cansa ... Daqui há algum tempo vão proibir as pessoas de circularem à pé nas cidades para resolver o problema dos atropelamentos.
As perdas que tais atitudes irão causar às agências de publicidades, às farmácias, ao emprego e aos próprios consumidores não são levadas em conta. Eu, como cidadão,
quero sim saber do lançamento de um novo remédio para gripe. Se me interessar, converso com meu médico, que irá analisar a viabilidade de me recomendá-lo. Eu também quero ter a oportunidade de comprar uma lata de refrigerante na farmácia da esquina ao invés de ter que pegar o carro e ir ao mercado. Além disso, quem vai se
responsabilizar pelos investimentos feitos pelas farmácias e grandes redes de drogarias para se adequarem? O que farão com os estoques de produtos agora proibidos?
A questão do bafômetro pode ser vista pela mesma perspectiva. Já existia lei que penalizava motoristas embriagados. Bastava fazê-la cumprir, com fiscalização
séria e punições severas. Mas não, em busca dos holofotes, nossos políticos tiveram a brilhante ideia de criar outra lei. Fizeram isso porque têm motorista particular e imunidade de tudo quanto é tipo. Quem sofre é o cidadão comum, que não pode nem ir jantar com a esposa e tomar um cálice de vinho.
Existem algumas propostas positivas nesse sentido. Está para ser votado (ou já foi, não sei exatamente) um projeto de lei que exime o cidadão de ter que usar cópias autenticadas em repartições públicas, desde que apresente o original ao funcionário que estiver lhe atendendo. Além disso, órgãos do governo não poderão mais solicitar às pessoas certidões que devem ser obtidas em outros órgãos do próprio governo. Nesse caso, a própria instituição que está prestando o serviço é que deve, via integração com outras áreas, obter as informações necessárias.
Apesar de iniciativas interessantes, os resultados são ínfimos. Mal sabia eu que era feliz quando criança pois não conseguia enxergar coisas que hoje enxergo.
sexta-feira, agosto 14, 2009
Como controlar sua carreira
A mais recente edição da Revista Exame (edição 949, do dia 15/08/2009) trouxe mais uma vez a coluna "Agenda do Líder", assinada por Jack e Suzy Welch.Com o título "Como controlar sua carreira", os dois autores opinam sobre as perguntas que qualquer profissional deve fazer antes de tomar decisões sobre o futuro:
1) Meu trabalho me permite trabalhar com pessoas que compartilham o que eu sinto em relação à vida ou eu preciso me fechar em mim mesmo e talvez pôr uma máscara até o fim do expediente?
2) Meu trabalho me torna mais inteligente, ele amplia minha capacidade mental e me prepara para sair da minha zona de conforto?
3) Meu trabalho abre portar para mim?
4) Meu trabalho dá algum sentido à minha vida?
Através das respostas podemos avaliar se precisamos mudar o rumo de nossa carreira ou de nossa vida ou se tudo vai bem. Vale a pena ler o artigo inteiro, através da revista impressa ou, se você é assinante da Editora Abril, pode acessar pelo endereço.
[Livro] Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Há algum tempo passei a me interessar por contos. Para quem não conhece a definição, de forma bem resumida conto é uma história mais curta que um romance, geralmente de poucas páginas. Naturalmente, um dos livros que me despertou interesse foi Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Ítalo Moriconi (Organizador); Objetiva; 618 páginas; R$ 69,90). No livro, o organizador Ítalo Moriconi selecionou os 100 melhores contos (na opinião dele, é claro) do século passado, que vêm ordenados pelas décadas em que foram escritos. São mais de 600 páginas de contos dos mais variados assuntos e dos mais variados estilos. Na minha opinião, o ideal seria manter o livro na cabeceira, lendo um conto por dia. Mas eu, particularmente, não consigo iniciar um livro e terminá-lo de forma tão lenta. De uma forma ou de outra, a verdade é que encontramos contos muito bons e ... contos horríveis. Eu, como leitor amador, sinceramente não consegui entender a inclusão de textos tão ruins na selação dos cem melhores. Mas, de maneira geral, os contos são realmente de boa qualidade.
Por fim gostaria de fazer uma observação: creio que não seja todo leitor que goste ou vá gostar de ler contos. Alguns com certeza não gostarão, mesmo que eles sejam excelentes. O conto, por ser natureza intrínseca, geralmente exige uma leitura mais atenta aos nuances, às palavras, às frases, ao que está escrito nas entrelinhas, ao que o autor quis escrever mas não escreveu. Sendo assim, sugiro àqueles que nunca se dedicaram a leitura desse tipo de literatura que comecem com livros menores (e mais baratos), antes de investir tempo e dinheiro em um desse tamanho.
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terça-feira, agosto 11, 2009
[Livro] Execução
Existem livros e temas que precisam ser lidos no momento certo, ou da vida, ou da carreira profissional. Um desses livros é Execução (Ram Charan, Larry Bossidy; Campus; 264 páginas; R$ 40,90). A obra aborda principalmente os meios de conseguirmos executar, em termos profissionais, aquilo que prometemos. Afirma, criteriosamente, que de nada adianta belos planejamentos se no final a empresa não conseguir colocá-los em prática. Comprei este livro há alguns anos e o li na época. Não me acrescentou muito, e nem poderia. Naquele momento eu sequer tinha uma posição de liderança. Até entendi os conceitos mas não consegui fazer um paralelo com o trabalho que eu e a empresa onde atuava realizávamos. Um pouco mais maduro e com um cargo mais gerencial, resolvi relê-lo. Foi uma decisão acertada: desta vez consegui absorver mais os ensinamentos propostos e retirei lições que podem ser usadas no meu trabalho.
Cito abaixo alguns trechos interessantes à todos aqueles que gerenciam uma equipe:
"Conclua o que foi planejado: (...) A quantas reuniões você já compareceu nas quais as pessoas vão embora sem conclusões firmes sobre quem ia fazer o que e quando ? Todos podem ter concordado que a ideia era boa, mas, como ninguém foi responsabilizado pelos resultados, nada aconteceu. (...)" Página 76De qualquer forma, o público alvo de Execução é formado pelos escalões mais altos: diretores e presidentes. Os autores usam e abusam de exemplos práticos de empresas de grande porte, cuja realidade é muito distante daquelas observadas na empresa em que eu trabalho, por exemplo. Obviamente, tudo o que se lê acaba contribuindo para melhorar a visão e argumentação, mas alguns trechos acabam ficando muito no teórico, em função da falta de experiência prática nos assuntos tratados.
"(...) Muito frequentemente, esses líderes não prestam muita atenção às pessoa [que contratam], pois estão muito ocupados pensando em como tornar suas empresas maiores ou mais globais do que as dos concorrentes. Eles não estão considerando que a qualidade de seu pessoal é o fator de maior vantagem competitiva. (...) ao longo do tempo a seleção de pessoas certas é o que cria essa difícil vantagem competitiva sustentável. (...)" Página 111
"Sobre gerentes que não sabem delegar: (...) Alguns reprimem seus subordinados, tirando sua iniciativa e criatividade. Eles são gerentes de detalhes, líderes inseguros que não conseguem acreditar que os outros farão a coisa certa porque não sabem como avaliá-los e monitorar seu desempenho. Eles acabam tomando todas as decisões-chave sobre os detalhes, por isso não têm tempo para lidar com as questões mais importantes que deveriam estar enfocando ou reagindo às surpresas que inevitavelmente aparecem (...)" Página 124
"Líderes que trabalham muito além do horário são pessoas que não conseguem fazer com que as coisas aconteçam por meio de outras pessoas." Página 261
"Quando for avaliar uma pessoa, não confie apenas na opinião e nas observações do seu chefe. (...) Reúna cinco pessoas que conheçam o avaliado numa sala. Faça-as abrir, compartilhar ideias, discutir suas observações e chegar a uma conclusão. O diagnóstico virá da convergência de seus pontos de vista diversos. Esse é o cerne de seu processo de pessoal (...)" Página 157
Aconselho àqueles que querem ler o livro mas que temem falta de experiência prática em grandes corporações a dar maior destaque à Parte II (o livro tem 3), que discute "Os Elementos da Execução". Este trecho é, digamos, mais light, e trata bastante sobre liderança, mudança de cultura na empresa e delegação.
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